Contos

A vida alheia

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Ouvi Dizer que… Disseram que… Eu não fiz nada! Só estou contando o que me passaram… E assim as horas e a vida também passam. Com o falar e o escutar de outros que nunca são mencionados. Sempre sujeitos indeterminados. Falam tudo e não criticados. Criticar a quem? Reclamar com quem? Bocas e palavras muitas. Autorias? Nunca!

No mundo das celebridades e dos flashes, a vida particular das grandes estrelas é a matéria principal de revistas, jornais, blogs, programas de entrevista, enfim, de boa parte da mídia que se preocupa com isso. Preocupar-se com o outro.

Nesta onda, os consumidores-fãs atropelam-se, acotovelam-se, esmurram-se por uma foto, um autógrafo, uma noticia que seja sobre o seu ídolo. E tudo é visto e ouvido e repetido centenas de vezes.

E os fãs-atletas correm e pulam e saltam sem medo na esperança de ter ou ver ou tocar tudo o que diz respeito à celebridade. Perder horas e horas em filas quilométricas não é problema! Esperar em frente ao hotel também não!

Ídolo. Personalidade. Espelho. Três palavras. Uma ligação: produto. O cantor de olhos azuis, um produto. A nova atriz que derrete corações, um produto. O jogador de dribles fantásticos, mais um produto.

Vende-se tudo o que se possa imaginar: figurinhas, pôster, caderno, livro, chaveiro, caneta, brinquedos.

Vende-se a vida. A vida alheia.

E quanto mais informações (verdadeiras ou não) melhor. O namorado novo? Está na capa! A briga com o filho? Está na capa! Engordou ou emagreceu? Está na capa! E muitas e muitas capas: coloridas, dobradas, escuras, distorcidas, impactantes, simples, recicladas… São capas. É dinheiro.

Nisso tudo o que menos se vê é a simplicidade da vida. O silêncio e o sorriso de momentos não captados por câmera alguma. As brincadeiras e as palavras que qualquer homem ou mulher usam para escrever a vida. A vida de verdade e não a vida inventada e roteirizada pela mídia.

Há muito luxo e lixo apresentados como se fossem a última grande e imperdível novidade. Há muita sujeira e muito disse-me-disse. Há muita gaiatice. Há muita cena e pose. Fanfarronice.

Dessa forma a vida passa. Passam os famosos. Passa você que não deu atenção à própria vida. Outros nomes virão. Outros produtos se espalharão. E os sujeitos indeterminados?

Continuarão!

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: