Domingo

by Bia Mies | 07/01/2018 15:48

Quando cai em si, está em um túnel a uma velocidade desconhecida. Ao volante, um homem calado dirige. No banco de trás, a mente divaga entre o fim de uma noite com velhos e novos amigos, pastéis de pato ao molho de laranja e stracotto de costela com cerveja preta, o último filme do Woody Allen e o Rio de Janeiro nas primeiras horas de um novo domingo. Não há trevos de quatro folhas e nem é – ainda – manhã. A vontade incontrolável de percorrer as ruas e avenidas que se apresentam vazias após o túnel vai sendo consumida pela paisagem passageira, vista do interior do veículo. Ambos os olhos se fecham, só por um momento; todos os sonhos desfilam etéreos a sua frente e não é possível defini-los. Memória e futuro em míseros grãos de poeira… o que é a vida, se não atração e desafios? O que são os caminhos pelos quais um deve seguir (e segue)? É racional, a vida? Onde entram intuição e livre arbítrio?

O uber segue em linha reta. Atrás, em circunferências,  sente-se só si mesma, um ser artístico em busca de respostas. O pisca alerta desvia a atenção. O semáforo impede o desvio à esquerda. À frente, uma das folhas de uma janela abre com o vento. Não há ninguém. Uma luz verde permite que o carro siga viagem. Por que são tão persuasivas e impositivas as regras, na sociedade? Sente frio, mas prefere senti-lo a pedir ao motorista que aumente a temperatura do ar condicionado; assim sabe que está viva. O incômodo é interessante por isso. Ainda há muito o que pensar até chegarem – e a vida é tão curta, a cidade tão intensa em sua falta de pulsação – todos dormem, à vigília dos postes de cor âmbar.

Rodolfo, pontuação 4.85, pergunta se estão perto. Ela olha ao redor e não se encontra. “é mais à frente, um pouco”. Fixa o olhar nos números que vão passando, lentamente: 380, 382, 394. “ih, passamos”. Rodolfo passa a marcha ré e a brinda com a possibilidade do retorno – recomeço, reconfiguração. Ela pula para a janela oposta quando cruzam uma esquina. Alguns metros depois, eis o número 281. “Aqui”.

            Agradece, salta para a rua, fecha a porta, vai em direção ao portão. Rodolfo espera. Ela busca a chave no bolso da saia longa, encontra, encaixa e ouve o click. Rodolfo fecha o vidro e dá a partida. Em frente ao portão, na calçada, um poste a encara e a ilumina com seu âmbar. Ela se senta no assoalho e observa a noite. Quando finalmente dá por si, já é domingo à tarde. Está deitada em sua cama quando então entende que tudo não passou de um sonho.

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