Contos

O americano do 1401

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

Nos corredores comenta-se a boca nervosa que o americano do 1401 foi fuzileiro boina verde, daqueles que descascam abacaxi no dente, bebe água de goteira e estanca ferida só no bafo. De poucas palavras, olhar de computação gráfica, movimentos de Matrix, áurea de Blade Runner e pele de pêssego passado cobrindo músculos atracados a ossos longos. A boca em régua nunca enverga. Embora de fala mansa, seu “bom dia” arrepia os intestinos do mais bravo dos homens. Duas pedras azuis, de anel de chiclete fincadas na cara por um dedo ogro, avisam que não veio para tomar caldinho de feijão no boteco da esquina.

Seu apartamento não emite som algum. Nem uma tevê, rádio, sequer um singelo micro-ondas tão importante para um homem solitário. Recebe entregas neandertais de pizza, uísque e água mineral com gás. Mesmo no tórrido verão brasileiro não tira o surrado blusão de militar. Suspeitam, juram até, de um estranho volume nas costas escondendo uma submetralhadora ou até uma bazuca. Coisa dos “esteites”.

Quando tiros atravessaram o sol da manhã de domingo encontraram árvores, calçadas e corações ainda amaciados pelo torpor das cores imberbes. Enquanto alvos urravam a imbecilidade das vítimas, a síndica ligou para a polícia informando que o americano do 1401 estava fazendo tiro ao alvo no povo da janela do prédio. Vários corpos jaziam no solo.

 

 

Enquanto a polícia arrombava a porta do americano do 1401, os tiros do franco atirador farejavam uma perna desavisada detrás da árvore, um braço fino agarrado num esqueite ou uma orelha curiosa agarrada na pilastra. Não se perdia uma bala. O sangue marcava seu território indelével.

Quando entraram no apartamento encontraram um aquário enorme no meio da sala. Peixinhos coloridos desfilavam para um gato gordo e sonolento encrustado no sofá. Na mesa de centro jasmins guardavam segredos e no chão, nada, absolutamente nada.

Ouviu-se um grito enganchado de CD pirata, em seguida o som oco das coisas definitivas. Coisa de um ato só. Galho quebrando, disjuntor desarmando, topada ou amor acabando logo acima do apartamento. Correu-se aos métodos um andar. A porta já estava entregue. No peitoril da janela um jovem franzino exibia o pescoço em ângulo de 90°. Pendurado no braço direito um fuzil automático com mira telescópica de filme de sessão da tarde. Ao seu lado, sentado no chão, o americano do 1401 observava as nuvens indomáveis. Nunca entendera aquele povo, tão veloz, tão colorido, tão barulhento, tão puro, tão lindo, tão estridente, tão violento, no entanto tão previsível; como as nuvens.

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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