Contos Críticas

O estranho que nós amamos

Interessante perceber como a Guerra Civil Americana – conflito armado ocorrido entre os Estados Confederados e a União no século XIX – ainda desperta tanto interesse nos norte-americanos, com milhares de obras, dentre as quais alguns longas-metragens premiados como “…É o vento levou” (1939), “Tempo de Glória” (1989), “Dança com Lobos” (1990) e a nova versão de “The Beguiled” [“O Estranho que nós amamos”], a sexta produção da cineasta norte-americana Sofia Coppola, premiado pela direção no Festival de Cannes 2017.

Muitas dessas obras (mais de 50 mil livros e 45 filmes) contam histórias que se passavam naquele período, sem serem necessariamente filmes de guerra. A grande maioria fala de como a guerra civil afetava a vida das pessoas comuns, com fatos e versões da história e personagens reais e fictícios, ora retratados como heróis, ora como vilões.

A primeira versão – do misto de drama e suspense   “O Estranho que nós Amamos” – foi lançada em 1971, sob direção de Don Siegel e roteiro de Albert Maltz. O filme contava com Clint Eastwood no papel de John McBurney, o cabo da União ferido, e Geraldine Page, como Martha Farnsworth, a responsável pelo ‘Farnsworth Seminary for Young Ladies, situado no Estado de Virginia, além de Elizabeth Hartman como Edwina Dabney.

Ambos os roteiros têm como ponto de partida a novela ‘A Painted Devil’, escrita em 1966 por  Thomas Cullinan – classificada no gênero literário norte-americano denominado ‘Southern Gothic’, que explora temas sobrenaturais não usuais, grotescos ou mesmo irônicos, que se passam sempre no Sul dos Estados Unidos.

Na versão de Sofia Coppola, John McBurney (Colin Farrell), o cabo ianque ferido em combate, é encontrado em um bosque pela jovem Amy (Oona Laurence), que o leva para a mansão onde funciona o internato de moças gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Elas decidem, num primeiro momento, cuidar dos ferimentos do soldado e somente entregá-lo às autoridades depois que ele se recuperasse. Mas, aos poucos, ele seduz e é seduzida por cada uma delas, que desenvolvem interesses e fantasias inconfessáveis com o único homem na casa.

Esta nova adaptação se distancia da versão de Don Siegel, mais fiel à novela de Thomas Culliman, abandonando temas presentes e cruciais para o desenvolvimento da trama naquele momento – como a discussão da questão da escravidão e da pedofilia – com a exclusão da personagem da escrava Hallie e a redução dos dramas vividos pela dona do internato, Martha Farnsworth, que teria ligações pouco claras com as alunas e com o irmão na versão original.

Sofia Coppola teria preferido valorizar a história com uma versão feminista do poder de sedução das mulheres, explorando a sensualidade presente no vestuário, na arrumação da mesa de jantar, na iluminação do ambiente, no jogo de olhares e de sedução entre as mulheres e o cabo, especialmente entre a professora Edwina (Kirsten Dunst) e a jovem Alicia (Elle Fanning), cujos desejos sexuais reprimidos, a culpa e a manipulação, associados ao ambiente repressor da época e aos problemas decorrentes da guerra, culminam por levar ao desfecho totalmente inesperado.

Responsável pelos premiados “Encontros e Desencontros” (2003) e “Maria Antonieta” (2006), Sofia Coppola merece elogios pela direção, pela fotografia e pelo elenco primorosos. Há que se destacar, ainda, a esplêndida locação das filmagens, com um fantástico bosque, no verdadeiro estilo dos contos de fadas e o internato em uma autêntica residência sulista a ‘Madewood Plantation House’, construída em 1846, tombado como patrimônio histórico nacional em 2007, e que funciona como um hotel na Louisiana.

A guerra estava ali ao lado, evocando um drama histórico, num filme de época, com o ruído e a fumaça dos canhões, os soldados que vez ou outra surgiam, afligindo as mulheres isoladas naquele ambiente hostil. Mas o clima travado na casa mais lembrava um filme de suspense, resvalando para um verdadeiro conto de terror, bem ao estilo do ‘Southern Gothic’ de Thomas Culliman, com a revelação do verdadeiro demônio presente em cada um de nós.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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