Contos

Senhor das horas

Iza Calbo
Escrito por Iza Calbo

Tudo no subsolo está sombrio. O baú de correspondências antigas‚ banhado por uma fresta minúscula de sol, como se escondesse, de algum modo, um resto de vida. Ive tenta andar de um lado a outro, abrindo passagem num espaço praticamente inexistente. Depois, tomada por uma nostalgia que não sabe de onde vem, posta-se diante do baú e deixa-se embriagar pelo cheiro de mofo e lembranças passadas. Vai pegando envelopes, cartões, cartas de amor e de raiva, que sequer teve a coragem de postar. Uma, em especial, abre-se diante dos seus olhos frios de quase inverno e as letras vão saindo das linhas, uma após as outras, colando-se em sua memória afetiva, a cortar-lhe visceras e sentimentos.

Sem perceber, uma lágrima escorre pela face já cheia de rugas e frustrações. E, quase sem sentir, Ive redescobre-se na manhã repleta de sol, à beira do mar, andando feito uma louca a catar conchinhas e um romantismo embalado pela presença do carteiro de todos os dias. Pés molhados, mãos úmidas pela ansiedade da espera. Aguarda a resposta de Ilian, suas frases, seus versos moldados pela saudade.

As horas passam sem que Ive se dê conta. Os desenhos feitos na areia vão sendo desmanchados rapidamente. São sempre outros, mas tão iguais. O carteiro, de sempre, lhe retorna o sorriso… e mais nada. E ela, sem querer entender, sonha sem olhar o velho relógio de madeira, pendurado numa das paredes da casa de praia, cheirando a salitre e solidão.

Ilian, aos poucos, torna-se um personagem do cotidiano de sol morno de Ive. Um personagem que só aparece nos sonhos que a noite permite. Companhia indispensável desta mulher que vai dividindo a vida com uma gata siamesa, de olhar tão distante quanto o seu. As datas vão se avolumando e as correspondências, também. Algumas respondidas, outras nunca enviadas. As de Ilian, por exemplo, ganharam até uma pasta parda e passaram a ser catalogadas, primeiro por assunto, depois por mês e, a partir de dado momento, por mera necessidade de apego a um alguém que nunca ousou dizer adeus, mas que se foi.

Da casa de praia, Ive mudou-se para uma de campo e, no subsolo, abarrotado de lembranças acumuladas ao longo de uma existência aparentemente vazia, ela colocou o baú com todos os escritos, rascunhos de suas nobres fantasias. Recusava-se terminantemente a seguir horários. Mesmo quando trabalhava fora de casa, guiava-se pelo seu relógio invisível. Talvez temendo a grandeza apavorante do tempo. Talvez querendo livrar-se destas amarras tão humanas que não combinavam nem um pouco com sua alma aérea.

Apesar disso, não escapou ao lugar-comum da maioria. Teve que bater ponto até se aposentar. Foi aí, então, que comprou a casa com o subsolo reservado para suas lembranças, num lugar verde onde nem o vento ousava se apressar. Corroída pelos inúmeros fantasmas abrigados dentro de si mesma, descobriu-se envelhecida frente a um espelho de moldura antiga, meio comida pelos cupins. Espelho de corpo inteiro, adquirido num antiquário, e que cabia-lhe em sua plenitude de carne e osso. Tantas vezes ficou ali, parada diante da própria imagem, ressuscitando sensibilidades e libidos, passeando as mãos, como se as suas fossem as de Ilian. Pobre mulher. Tirava orgasmos de si e nem sempre os devolvia!

No instante em que a velhice a surpreendeu, Ive decidiu reler as linhas da sua mais doce ilusão. Retornar no tempo, o seu maior inimigo, pareceu-lhe simbólico frente a descoberta do que havia sido a insistência quase louca de evitar os ponteiros dos relógios. No subsolo sombrio, invadido pela leve fresta de sol, teve a sensação de ser uma espécie de Dorian Gray, o personagem de Oscar Wilde que sempre a fascinara, ora pelo cinismo, ora pela forma vil pela qual mantinha-se o mesmo, envelhecendo numa tela, seguindo um estranho pacto capaz de driblar o tempo e o seu poder de acabar com algumas coisas e de fazer nascer outras. Não, e quase nunca, nesta ordem.

Encontrou, no baú, além das cartas de Ilian e seus lindos cartões feitos à mão, uma velha agenda com telefones igualmente velhos. Tudo sob a regência dele, o tempo. Leu todos os nomes, de A a Z. Muitos, sabia, eram de pessoas já   mortas. Outros, de gente perdida por aí. E alguns, poucos mesmo, de conhecidos seus ainda encontráveis. Havia, também, nomes dos quais não se lembrava. A memória, assim como a moldura do antigo espelho de corpo inteiro, estava corroída pelos dias passando. Como se os dias fossem os cupins que vão comendo a vida, rapidamente ou bem devagar. Apagando coisas aos pedaços ou levando pedaços inteiros das coisas.

Afundada naquele mundo sombrio, lembrou-se dos novos rumos da humanidade. Dos amores virtuais e dos gozos tirados dos teclados, a partir de um momento em que o homem reinventou o prazer sem pecado, sem carteiro, sem mãos geladas e sem coração aos saltos. O prazer feito de beijos dados pela linha telefônica, sem o delicioso embolar de línguas e salivas que tantas vezes fizera Ive experimentar o que o mundo chama de mundo, mas desconhece. A letra de Ilian era a mesma. Como estaria agora? Esta pergunta não ficou no subsolo.

Quando saiu daquele pedaço apertado da casa, Ive decidiu decifrar a indagação, agora tornada enigma. Mais de 20 anos haviam se passado desde a última vez em que trocaram uma carta. Mas o tempo, definitivamente, não era devidamente medido por aquela mulher. Com a ajuda de uma memória desgastada, começou a relembrar partes daquela história. Tinha um ponto de partida: a cidade onde Ilian morava e o lugar onde trabalhava.

Tentou descobrir o novo telefone no auxílio à lista. O sobrenome, pouco comum, não foi o bastante para que a tentativa desse certo. Resolveu, então, deixar a paz de sua casa de campo e tomar um avião, coisa que detestava, rumando para São Paulo. No avião, lembrou-se de uma antiga amiga que costumava dizer que o milagre daquele meio de transporte não era o de fazer o homem voar, mas o de permitir que o homem tocasse outra vez a terra firme… são e salvo. Dentro do pássaro de aço,   Ive iniciou um plano quase detetivesco para redescobrir o antigo amor.

Em São Paulo, em meio à loucura do vaivém, hospedada num hotelzinho de quinta categoria, voltou a tentar localizá -lo pelo catálogo telefônico. Achou quatro sobrenomes. Ligou para o primeiro, o segundo e, no terceiro, encontrou um Ilian. Mas ele não estava em casa. Uma mulher de voz rouca, informou que ele havia saído para caminhar numa pra‡a próxima da residência, como fazia habitualmente. Perguntou se Ive queria deixar recado. Não, ela não queria.

Mais tarde, fez uma nova tentativa. A mesma mulher disse-lhe que o “senhor Ilian” estava repousando. Desta vez, Ive deixou o n£mero do hotel, antecipando tratar-se de uma velha amiga, recém-chegada da Bahia. A mulher emendou uma conversa sem fim, perguntou um monte de coisas, disse que havia lido todos os livros de Jorge Amado e que, por conta disso, podia imaginar um pouco do que era o povo baiano. Tinha sua lógica. Curiosa, Ive perguntou como estava Ilian. Se havia mudado, se ainda compunha canções, quantos filhos tinha e até, acreditem, se estava gordo e careca.

Aos poucos, foi redescobrindo Ilian a partir das informações passadas pela sua esposa. Por incrível que pareça, apesar dos 20 anos transcorridos, não deixou de sentir-se enciumada e, por pouco, não retornou imediatamente para sua casa de campo, prostando-se diante do baú por onde o tempo não havia passado.

Impulso controlado, Ive resolveu andar por São Paulo, misturar-se a toda aquela neurose. Parou na Estação Vergueiro, onde encontrou-se com Ilian da primeira vez em que esteve lá  com esta finalidade. Pode vê-lo chegando, correndo, com os cabelos soltos à altura dos ombros, beijando, primeiro suas duas amigas e, ao final, ela. O primeiro beijo de língua e saliva. Depois, com o coração aos saltos, assistiram a um show e, ao final, foram para o apartamento dele, num nono andar. Ela e Ilian fizeram o caminho de moto, na noite fria de São Paulo. Na sempre imaginativa cabeça de Ive, ela havia encontrado o príncipe e estava montada na garupa de seu cavalo negro. A hora do rush trouxe Ive de volta  à realidade.

Quando retornou ao hotel, ficou sabendo que Ilian havia ligado. Ligou para ele, mas não conseguiu falar. Foram cinco dias de desencontro. No último, já amiga da esposa dele, fez uma nova tentativa. Outra vez dentro do avião, viu todos os sonhos despencando no chão das nuvens que estavam do lado de fora. Ao abrir a porta da casa de campo, sentiu-se meio apalermada pelo que havia feito. Sair assim, como uma louca catando conchinhas na selva de pedras de São Paulo. E, ainda por cima, tentando rever Ilian, que havia saído do seu dia-a-dia intempestivamente, sem dar notícias, sinais de vida ou de volta. Bom, estava feito. Nada de ficar remoendo as bobagens nem a perda de tempo, onde o tempo sequer existia.

Levou cerca de 15 dias rearrumando a casa. “Se não pode se mudar, mude os móveis de lugar”. Trazia este lema popular como um ensinamento e, invariavelmente, surtia algum efeito. Pelo menos estético. Também servia para mantê-la ocupada. Mas tudo acaba. Até a esperança que ‚ a última a morrer, morre. Pronto. Ligou para o trabalho de Ilian. Ele ainda mantinha-se no emprego, para matar o tempo, como havia lhe explicado a esposa. Coitado, mal sabia que ninguém mata o tempo. É ele, o tempo, quem mata todo mundo. A voz era a mesma. Quase um sussurro.

Ive voltou ao passado, pode rever os olhos cinzentos de Ilian, seu corpo esguio, as pernas longas, os lábios finos e quase sentiu o cheiro daquele homem que, agora, tinha a certeza de que amara em detalhes e detalhadamente. A conversa foi curta. Cheia de uma saudade entoada como um cântico a partir de cada frase proferida. Ilian, meio que sem graça, disse a Ive que ainda guardava tudo o que ela lhe escrevera. Ive, surpresa, retornou a gentileza que é a de saber-se encantada pelo amor, por assim dizer, emoldurado. Como o tempo havia passado, trocaram e-mails. O telefone ligado e a vida seguindo.

Longe da espera do carteiro, Ive começou a entrar na Internet, coisa que abominava. Passados quatro, cinco, dez dias, retornou ao subsolo sombrio e reabriu o velho baú. Ilian havia desaparecido outra vez. Só que agora tudo estava diferente. O tempo passava e ela percebia cada segundo. Uma angústia com cor de terra molhada tomou conta do seu coração antes sobressaltado. Sabia-se irremediavelmente só em meio a dois tipos de caixas: o baú e a de entrada e saída do correio eletrônico. Adormeceu ali mesmo, em meio ao mofo, agarrada a uma carta de Ilian. A que mais gostava. Amanheceu sem que se desse conta. Ouviu o sino colocado na porta da casa tocar mais forte. Havia alguém chamando. Era o carteiro. Ali, vestido como antes, segurando papéis, contas e as mesmas coisas de sempre. Desta vez, no entanto, trazia um sedex.

O envelope de plástico amarelo, com fecho azul, fora remetido por Ilian. Achou estranho, a princípio. Depois, acomodada em seu espremido subsolo sombrio, abriu a correspondência. Havia uma foto de Ilian sozinho, uma dele com a família, mulher, filhos e o escambau, e uma terceira de Ilian como ela o guardava na lembrança. Junto, escrito à caneta, uma carta meio soturna, falando da vida, do acaso, dos rumos inesperados que as coisas tomam e, por último, da última vez em que se viram. Tudo havia dado errado. O grande amor havia se contorcido frente às barreiras, medos e a entrada, na história, de uma terceira pessoa.

Ele ali reescrevendo e ela revendo a cena. Ilian diferente. Um bilhete assinado por Aninha, “com noite de lua cheia e tudo” (isso nunca saíra de sua cabeça). Os cupins da vida sabiam que parte da memória comer. O anel jogado pelo nono andar, todos os escritos dela para ele tomados de volta e reeinviados minutos depois junto com o livro “O Pequeno Príncipe”. A dor, o silêncio, a volta para a Bahia, a necessidade de apagar o sonho.

Um ano depois, num destes congressos de estudantes, Ive deu de cara com Ilian. Quase morreu e saiu. Ele foi atrás, tentou uma conversa, mas ela, jovem e cheia de orgulho, descartou. Assim, friamente analisando a história, Ive não cansa de arrepender-se. Queria Ilian ao extremo. Gostava do seu jeito, da sua voz afônica, mas foi quase uma besta. Ela engravidou de outro homem e ele engravidou outra mulher, sua esposa até os dias atuais. Ela foi mãe solteira e, depois de Ilian, amou com a mesma intensidade uma outra pessoa. Não  orgulhosa, mas esta outra pessoa se foi.

Casou-se, então, teve mais um filho e adotou um outro, Dorian, o caçula que, ironicamente, parecia não envelhecer. Agora, vivia com uma gata siamesa e com ela própria. Habituara-se a esta solidão banhada a um bom vinho e muitas palavras jogadas no papel. Buscar Ilian no passado, foi como buscar a vida onde ela havia parado. Mas Ive só havia se dado conta disso quando ouviu a voz de Ilian outra vez. Manuseou o sedex, tocando cada parte que ele havia tocado, leu e releu a carta, olhou para as fotos e uma coisa roubou-lhe a atenção: Ilian não havia mudado como ela imaginava. O olhar cinzento, o risinho rasgado, os cabelos agora menos fartos. Pouca diferença para os seus olhos que, de tanto ler Vinicius de Moraes, traduzia esta imagem na certeza do poetinha de que “doce é este amor meu de criatura, que vê envelhecer, mas não envelhece”.

Adormeceu de novo no subsolo. Desta vez, completamente embriagada pelo seu Cabernet Franc de quase todos os dias. Quis, de novo, ter 18 anos, confessar a Ilian todos os medos e anseios. Somente agora, dava-se conta de que o tempo passara. Cruel e rápido, como os cupins que rondavam o seu subsolo e, de certa forma, a sua vida. Outra vez o tempo, seu maior inimigo. Não havia volta, nem como evitar que ele passasse, mesmo quando se mantinha escondida no subsolo, tentando impedir o acesso dele – o tempo – a seus segredos e amores. Os papéis amarelados, alguns pedaços devorados por traças e ratos, tudo, no fundo, traduzia-se na implacabilidade deste senhor que fazia envelhecer mas que, pelo vigor com que ia se apossando de todos, permanecia um Dorian Gray pactuado com as vidas que se incumbia de corroer.

Ilian estava longe, tinha mulher, quatro filhos, trabalhava feito um condenado e havia percorrido o seu caminho, a seu jeito, movido pelo acaso… talvez. Não tinha mais espaço para as caduquices ainda adolescentes de Ive. Nem para esta sua longa disputa para tornar tudo, ao menos por um breve momento, eterno. Fazendo, se preciso, com que os ponteiros do relógio voltassem ou parassem, obedecendo à sua obssessão de negar o efêmero, o gastar das horas e o ir sem volta de todos os dias. Ilian havia se tornado um homem. Provavelmente como qualquer outro, sentado diante da televisïo, aos domingos, assistindo aos programas de auditório ou aos filmes repetidos num canal pago.

Controlando a solidão com o uso de alguns antidistônicos e antidepressivos, Ive percebeu que seria mais feliz se tivesse feito o mesmo que Ilian: se moldado ao normal. Mais uma vez, o tempo postou-se diante da janela de sua casa de campo, lembrando-lhe de que já estava feito, de que agora era tarde para mudar. Os beija-flores que diariamente entravam e saíam de sua morada para beber a   água-com-açúcar lhe pareciam, neste momento, os ponteiros do relógio que havia se recusado a olhar.

Eles demarcavam a vida do mesmo modo. Entravam sozinhos, aos bandos, velhos, jovens, bebês, de cores variadas… Sombria como o seu subsolo, a mulher catou alguns morangos e desceu ao encontro do velho baú. Pegou um cartão em que Ilian havia se desenhado como Lampião, montado num jegue, na estrada, perto de uma placa onde lia-se “Em breve vou rever minha Ive Bonita”. A Maria Bonita do Lampião Ilian sentia-se acuada pelas tropas da solidão e pressentia a morte próxima, talvez em seu subsolo cheio de lembranças e mofo.

Junto com os morangos, as caixas dos remédios controlados que já  não controlavam mais a sua ansiedade. Pegou um bloco de notas, uma caneta simples, destas compradas nos camelôs, e escreveu de um só fôlego: “Querido e amado Ilian, somente hoje, observando o vaivém das horas que os beija-flores levam para todas as direções, pude medir o sentimento que me guiou nestes anos todos e que acabou me levando, de volta, até você. Não sei ser feliz. Perdi todo o meu tempo, negando o tempo que tinha e ignorava. Envelheci, meus filhos se foram, cada um para um lado, pássaros de suas vidas, e fiquei aqui, nesta casinha de campo, no meio do mato, tomando o leite de uma vaquinha magra, comendo as coisas que plantei, sentindo o sabor da terra, mas desviando o paladar da vida. Quando estive em São Paulo, tão perto de você e tão longe de fato, percebi que estava arrancada, aos pedaços de mim mesma. Os cupins que roeram a moldura do antigo espelho são os mesmos que ajudei a criar, fingindo que o tempo não passava. E, neste subsolo banhado pela minúscula fresta de sol, descobri que o sol esteve o tempo inteiro encaixotado neste baú de lembranças. Era você com o seu sorriso de menino, seus sonhos que não pude sonhar, seu corpo que tive medo de experimentar. O sol esteve todos os dias caminhando ao meu lado, separado de mim por uma trinca de motivos, mas ao alcance da minha cabeça, tão marcada pela necessidade de calor, precisão esta tão negada pelos dias mornos que eu imaginava ser a vida compactada. A vida suficiente. Há sete dias, desde que recebi aquele envelope plástico com suas palavras e fotos, notei claramente o relógio que trago pendurado em mim e percebi a minha luta (inglória) contra o Senhor das Horas, o tempo. Não pude freá-lo nem esconder-me, muito menos dribla -lo do meu caminho. Deixei que ele estabelecesse distâncias e tomasse de mim a vida que eu poderia ter saboreado como a um Cabernet Franc. Sentindo. Apenas isso. Gostaria apenas que você soubesse que consegui, ironicamente a tempo, perceber o quanto fui perdedora neste passar dos anos. O quanto me deixei guiar pela bússola quebrada da minha ilusão de ser um Dorian Gray invadido pela jovialidade em sua casa de campo e mais nada. Hoje, um dia 13 de um mês qualquer – já não importa – vou de encontro ao tempo que não quero mais ter. Freando, enfim, esta presença incômoda com os meus remédios para abrandar o corpo e que só fizeram envelhecer a alma.

Sente, então, o beijo que ainda trago guardado nas cartas que não te enviei, o abraço que desejei te dar há 20 anos e não o fiz. O amor que sempre foi seu. Sem mais, de sua Ive Bonita, rendida pelas volantes e cravada pelas balas do tempo perdido”.

*Extraído de livro inédito Senhor de Tudo

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Sobre o Autor

Iza Calbo

Iza Calbo

IZA CALBO é Jornalista de formação (aposentada) e escritora, paulista de nascimento, baiana por opção. Gosto de pessoas inteligentes e bem humoradas..

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