Contos

Solo

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

A vista lateral dá para a baía da Guanabara. É um daqueles prédios antigos, mas bem conservados, do Largo do Machado. A varanda, estilo antigo, é toda de alvenaria. O vento bate no rosto do menino Bruno. Seus olhos molhados e vermelhos são prova de que havia chorado bastante pouco antes. O pré-adolescente, vestindo o uniforme da escola, caminha em direção ao parapeito, trazendo em uma das mãos uma revista e uma folha de papel. Ele coloca a revista no parapeito, sobre ela a folha de papel. Pega uma pedra de um dos vasos de planta e coloca como peso de papel sobre a revista e a folha. Ele começa a subir no parapeito apoiando-se em um dos muitos vasos de planta largos e pesados. O vaso falseia, ele balança, mas consegue subir. Fica em pé, de frente para a rua, fecha os olhos e abre os braços.

A escola ocupa quase um quarteirão. Grande, tradicional e particular. O pátio recebe as turmas do sexto ao nono ano do ensino fundamental para a hora do recreio. Abílio, um menino de catorze anos que sofre de uma pequena deficiência mental, aparece. Ele está de uniforme como todos, mas chama a atenção pela antiga mochila de couro pendurada nas costas, a antiga lancheira de couro a tiracolo, um guarda-chuva embaixo do braço, embora esteja um dia de sol e sem o menor indício de chuva, pelos óculos “fundo de garrafa” e pelo gibi que carrega na mão. Senta-se ereto num canto do pátio e, de forma metódica, coloca o guarda-chuva do seu lado direito e o gibi sobre ele, retira a lancheira do pescoço e a coloca do seu lado esquerdo. Após abri-la, retira um pano e forra o chão à sua frente. Pega uma garrafa de suco e a coloca no canto direito do pano, uma maçã no canto esquerdo e um sanduíche, embalado com papel alumínio, no centro. Verifica rapidamente se tudo está em ordem, desembrulha o sanduíche e começa a comer.

Do outro lado do pátio, Bruno está com mais quatro colegas: Vitor, Julio, César e João.

– Trouxe a parada? – pergunta Julio.

Bruno mostra em suas mãos uma bomba de fogos de artifício, conhecida como “malvina”. Julio assente e exclama:

– Beleza!

João, inseguro, pergunta:

– Mas ele vai mesmo?

– Pô! Ele vai todo dia, né? – responde Bruno.

Vitor, ansioso, com um sorriso no rosto, quer saber:

– Como tu vai fazer?

– Vou esperar ele entrar e depois vou lá. Boto a parada e volto.

– Maneiro! Aí é só esperar o mané correr pelado pelo pátio.

Abílio guarda metodicamente a garrafa e o pano, enrola os restos da maçã no papel alumínio. Levanta-se, coloca a lancheira a tiracolo, pega o guarda-chuva e o gibi, joga os restos no lixo e começa a caminhar. Passa pelo grupo de Bruno e seus amigos, com receio, mas arrisca um sorriso e um cumprimento a Bruno, que responde com um olhar firme, um quase imperceptível sorriso e um leve movimento de cabeça. Abílio abre um grande sorriso.

Cesar, percebendo, provocador que é, atiça:

– Ih! Olha lá! O lesado é teu fã, aí!

Vitor aproveita:

– É mesmo! – e, com a voz afetada, provoca ainda mais – Meu herói!

Bruno, sem graça, mas sem querer perder a pose com os amigos, retruca:

– Qual é, mané? Para com isso!

Abílio volta à sua condição de menino fechado e dirige-se aos banheiros no fundo do pátio. Ato contínuo, Cesar dispara:

– Aí! Já é! Vai lá, Bruno!

Bruno observa a movimentação do menino e começa a segui-lo. Abílio chega à entrada, olha para um lado e para outro, desconfiado, e entra no banheiro masculino. Ele abre uma das cabines contíguas e entra. Coloca a mochila no chão, ao lado dela a lancheira e o guarda-chuva pendurado na maçaneta da porta. Abaixa as calças, senta-se no vaso sanitário, pega uma caneta na mochila, abre o gibi sobre suas pernas e começa sua leitura. Bruno entra no banheiro, observa em que cabine está o menino e se direciona à cabine ao lado. Acende a “malvina”, rola-a pelo vão entre uma cabine e outra. A “malvina” para atrás do vaso de Abílio e Bruno sai correndo do banheiro.

Bruno, junto aos quatro companheiros, escuta o barulho da explosão e aguarda a reação de Abílio. Algum tempo passa, meio minuto, nenhum grito e nenhuma ação. Um pouco de fumaça sai do banheiro.

– Cadê o cara? – Bruno pergunta assustado, mais para si que para seus companheiros.

Um inspetor, que escutou o barulho, surge correndo e entra no banheiro. Em seguida, sai correndo e transtornado.

– O que será que houve? – Pergunta João, com medo em sua voz.

Bruno olha para ele e responde:

– Sei lá! Acho que vou lá!

– Tá maluco? – Pergunta Julio.

– Droga! Tamos fu! – Exclama Vitor, sem o menor atrevimento de antes.

– Vou lá! – Bruno diz e vai.

Bruno entra, seguido de mais alguns curiosos, há muita fumaça. Ele se aproxima da cabine do Abílio e vê que a porta está aberta para fora. Atrás da porta, está Abílio caído no chão: Bruno vê apenas sua mão estendida para além da porta. Ele caminha e, bem perto da porta, sente que pisou em algo, involuntariamente se abaixa e pega o gibi que Abílio estava lendo. Logo em seguida, entram no banheiro o inspetor e o diretor da escola.

– Saiam todos! Vão para suas salas! – diz o diretor.

– Vocês ouviram, meninos! Saiam, agora! – complementa o inspetor.

Os meninos saem e eles se aproximam da cabine. O diretor olha para o inspetor com tristeza, saca um celular, digita um número e aguarda atendimento.

A sala de aula ostenta um silêncio tão assustador quanto incomum. As crianças estão em choque pelo acontecido. Bruno está cabisbaixo, atrás da carteira, como se olhasse para o chão. Uma orientadora, pesarosa e com os olhos injetados, chega à porta e chama a atenção da turma. Ele levanta a cabeça, assustado.

– Atenção, turma! Infelizmente, nosso aluno Abílio sofreu um acidente. Ele… – ela hesita – ainda estamos apurando o que aconteceu, mas vamos liberá-los mais cedo hoje.

Uma aluna levanta-se e pergunta:

– Ele morreu mesmo?

– Ele… sim… infelizmente sim. Ele está com Deus agora.

Outra aluna levanta-se.

– Que que aconteceu?

– Gente, ainda não sabemos… achamos que foi o coração, mas não temos certeza.

Ela limpa os olhos com a mão direita, recompõe-se e começa a entregar a cada um dos alunos uma folha de papel.

– Isto é um informativo aos responsáveis de vocês. Tragam de volta assinado por um deles, ok?

Bruno abaixa a cabeça novamente. Não está olhando para o chão, mas, sim, para o gibi que segura com as duas mãos.

Bruno está saindo do colégio. Para, no portão, olha para o gibi em suas mãos e seus olhos marejam. Passa pelo portão e começa a caminhar na rua. Atrás dele, uma ambulância do corpo de bombeiros está chegando à escola.

Bruno caminha na rua, passa em frente ao Palácio do Catete e chega a uma lanchonete de uma conhecida rede de fastfood. Ele para, observa o movimento e resolve entrar. Entra numa das filas. Há muito falatório e risos. O ambiente é alegre. Ele olha para o gibi e, sem pedir nada, sai da fila e vai para uma mesa. Senta-se e fica olhando para o gibi. Atrás da sua mesa, algumas meninas lancham e conversam animadas. Bruno levanta a cabeça, olhos marejados fitando o nada. Ele respira fundo, levanta e caminha em direção à saída. Sai da lanchonete e anda pela calçada, quando se dá conta, chega à entrada do seu prédio. Para e olha para cima. Respira fundo, sobe as escadas e entra.

Bruno está parado de frente para a porta do apartamento. Nela, o número 702. Ele caminha em direção à porta, pega a maçaneta e gira. Ao entrar, encontra seus pais discutindo.

– Não dá! Assim, não dá! Larga do meu pé.

– Não posso! Daqui a pouco vão cortar a luz! Isto é vergonhoso!

– Eu estou desempregado, porra! Ainda não caiu a ficha, não?

– Pai?

O menino chega perto do pai e entrega o bilhete da escola. Mal ele lê, explode em gritos.

– Foi você não foi?

– Eu… eu…

– É claro que foi!

A mãe, protetora, pergunta:

– O que houve?

O pai entrega o informativo à mãe. Ela começa a ler, mas ele não a espera terminar.

– Olha aí o que houve! É por isso que ligaram chamando a gente.

– Não o acuse sem saber.

– Sem saber? Sem saber? O colégio nos chamou para ir lá pra quê? É claro que foi ele. Ele vive se metendo em confusão.

– Ainda assim…

– Ainda assim é o caralho! Toda vez que tem um problema, esse moleque tá envolvido.

A mãe termina de ler o bilhete, leva a mão à boca e, diz, assustada:

– O menino… o menino…

– Pois é, o garoto morreu…. provavelmente por causa de uma brincadeira de mau gosto como as que o seu filho vive aprontando.

Bruno não aguenta mais e explode:

– Você não sabe de nada! Não está nem aí para saber de nada! Não enche o saco!

O pai dá um tapa em seu rosto e grita:

– Eu tô cansado disso!

A mãe, indignada, retruca:

– Disso o quê?

– Disso… disso… desta vida… o que que eu tô fazendo aqui…

– Por que não vai embora então?

A discussão volta a ser entre os dois, como se o garoto não estivesse ali. Bruno sente-se um nada, uma coisa insignificante. Corre para o quarto e bate a porta.

Bruno senta em sua cama, com olhar sentido. Ele pega o gibi de Abílio e vê em suas mãos uma edição antiga e bem usada da revista do Superman. Bruno abre a revista e começa a folheá-la. Nota que Abílio, em algumas páginas, fazia anotações: abaixo da figura de cada personagem, escrevia um nome. Lois Lane tinha o nome de Ângela sob seus pés; Lex Luthor, o nome de Vitor. Na última página, em que o Superman está dizendo a Jimmy Olsen que este é o seu melhor amigo, o nome Abílio está escrito sob os pés de Jimmy, e o nome Bruno sob as botas vermelhas do Superman. Bruno fecha a revista e abaixa a cabeça. Tenta lutar contra a vontade de chorar. Levanta a cabeça, chorando, um choro contido e triste que se transforma em uma expressão de dor seguida de raiva. E então o choro torna-se uma torrente. Ele se levanta e olha para as portas da varanda. Pega o bilhete informativo da escola, uma caneta e escreve algo.

Os pais de Bruno ainda estão discutindo quando escutam um som surdo de impacto vindo de fora e um alarme de carro disparando. Eles se assustam e param de discutir.

– O que foi isso? – pergunta a mãe.

O interfone toca. O tempo para. O interfone insiste. Pai e mãe parecem estátuas. O rosto dela começa a ir do susto ao desespero. A urgência cresce e o tempo volta a andar. Ela corre para o quarto, o marido a segue. Percebem que Bruno não está lá dentro. Olham para as portas abertas da varanda. O pai senta na cama completamente derrotado. A mãe corre para a varanda.

A mãe debruça-se no parapeito, olha para baixo e grita. Ao seu lado, no parapeito, resistindo ao vento, uma folha de papel sob uma pedra e sobre um gibi. Neste papel, escrito em letras trêmulas, o texto: “Abílio, eu não soube voar. Me desculpa.”. A pedra, por fim, não resiste ao vento e a folha voa.

FIM

*Texto publicado inicialmente em 2008.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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