Crônicas

30 mil por um romance

Tarcísio Pereira
Escrito por Tarcísio Pereira

Por 30 dinheiros, será possível escrever um romance, uma peça de teatro, um livro de poesias ou de contos. Por 30 dinheiros, isso mesmo – ou melhor: 30 Mil Reais!

É o valor da bolsa que está sendo oferecida pelo Governo Federal, através da Fundação Nacional de Arte, para incentivar a inspiração e criação de escritores a produzirem novas obras literárias.

As inscrições estão abertas até final deste mês. Quando li a notícia, tomei um susto: é a primeira vez que vejo um edital oferecendo dinheiro para obras que nem existem. A ideia é plausível, de uma ampla dimensão e com retorno garantido para os promotores.

Onde há dinheiro, sempre haverá estímulo para se trabalhar e até para se criar uma obra poética.

O lamentável é que o volume de recursos, oferecido em seu total, não possui o mesmo tamanho da iniciativa.

O Governo colocou em seu orçamento 300 Mil Reais para ratear com 10 autores de todo o Brasil, em 10 bolsas de 30 mil reais cada. Mais um detalhe: em cada região só serão premiados 2 autores.Embora tentado pela proposta, estou quase desistindo quando penso no tamanho do Nordeste. Temos nesta região nove Estados onde o que não falta é escritor.

E haja escritores com livros inéditos ou projetos de escrever tantos outros. O valor da bolsa, do ponto de vista individual, é até razoável para quem merecer essa estrela.

Mas o total previsto no orçamento, em que pese a amplidão do Governo, ainda é muito pouco para o incentivo a uma área que, dentre as demais categorias artísticas, parece a menos favorecida de todas.

Até agora nenhum governo – seja Federal, Estadual ou Municipal, conseguiu cuidar bem da literatura. Não digo que seja por descaso, mas talvez por falta de criatividade ou porque os técnicos ainda não descobriram onde reside o câncer desse setor.

Nos últimos anos, é perceptível a escalada de avanços nos benefícios oferecidos, por exemplo, para o cinema, a música, as artes cênicas e as manifestações populares de tradição.

Quando surge um projeto para a literatura, é sempre na busca de formação de leitores através de incremento ou implantação de bibliotecas – às vezes em convênios para distribuição de livros junto às escolas, instituições ou coisa que o valha.Essas iniciativas são importantes, mas o problema da literatura não é só a falta de leitores.

Eu tenho certeza que os governos estão prontos a disponibilizar seus recursos a um projeto de literatura no país, mas as equipes que cuidam do setor ainda estão presos à generalidade do problema, como se os programas de incentivo à leitura fossem resolver o restante do mundo.

Não perceberam, inclusive, que a literatura é o mais barato de todos os setores artísticos. Enquanto se oferece milhões para a feitura de um filme, um livro bem editado, e bem distribuído, talvez possa ser feito com um leve orçamento de 50 mil reais.

A literatura, enfim, é o primo pobre, mas da palavra é que emanam as outras atividades.Então o que falta? Além dos programas de estímulo à leitura, é preciso incentivo para os autores. A agonia de escritores que escrevem, e não encontram editoras que queiram adotá-los, é a ferida que está precisando ser detectada urgentemente.

Proponho a qualquer governo, através de suas fundações culturais e coordenações literárias, que façam um mapeamento das pessoas que escrevem em seus Estados e municípios, escritores que tenham obras consistentes e que publicam escassas edições com dinheiro próprio para lançamentos que não passam da sua noite de autógrafos, guardando os livros em casa para distribuir aos amigos que encontram na rua.

O que essa gente precisa é de editora, e de editora que seja capaz de criar o seu mercado. Por outro lado, a editora é uma empresa com fins econômicos e de fato não pode sair editando a torto e a direito, sem a certeza do retorno.

Essa é uma realidade que demanda, dos governos, projetos de parcerias editoriais visando o interesse de todos – editor, autor e governo. Como conseqüência estaremos atendendo ao interessado maior, que é o leitor.

A bolsa que é lançada agora, afora o dinheiro que se oferece, parece soprar uma brisa de otimismo nesse campo de tanta agonia dos que escrevem livros. Mais que a iniciativa, o que me anima é acreditar que, finalmente, alguém parece enxergar que o incentivo maior começa no autor.

Depois dessas bolsas serem concedidas, ficaremos na espera de outros programas que beneficiem um número maior de artistas. E talvez nem seja necessário um edital de 30 dinheiros, mas a instalação de convênios editoriais entre o poder público, o escritor e a iniciativa privada.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Tarcísio Pereira

Tarcísio Pereira

Jornalista e Publicitário, Escritor e Teatrólogo, atua nas áreas de comunicação e cultura.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: