Crônicas

A Aposentada Secreta

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

Dona Lourdes aprendeu a segurar o dedal e enfiar a linha na agulha antes mesmo de  ler e escrever no pré-escolar. Ajudava a mãe na costura e herdou o ofício com gosto. Sabia que os panos seriam seus companheiros para o resto da vida. Sempre foi autônoma e recolhia a contribuição para o INSS regularmente há 32 anos, sem nunca ter tirado uma licença. Não tinha pressa de se aposentar, mas assistindo na TV o Presidente da República anunciando o pacote de maldades da previdência achou por bem dar entrada nos papéis, antes que a direção do vento mudasse.

Não comentou com ninguém, isso é coisa pessoal, não havia de sair por aí batendo nos peitos “Me aposentei! Tô rica!”. Deus a livre. Nunca foi de falar dos outros, quanto mais da própria vida. A conversa com a máquina de costura lhe bastava.

No dia em que entrou o primeiro crédito na conta, Lourdinha respirou aliviada. Agora poderia pegar menos encomendas e descansar um pouco a coluna e a vista. Às oito e quinze da manhã o telefone tocou:

— Bom dia! Eu falo com a Sra. Maria de Lourdes de Azevedo Santos?

— Quem deseja?

— É a Sra. Maria de Lourdes?

— É, é. Quem fala?

— Meu nome é Valquíria. Parabéns, Dona Lourdes pela aposentadoria!

— De onde está falando?

— Aqui é do Banco Abacate S/A. Ficamos sabendo que a senhora recebeu hoje o seu primeiro crédito de aposentadoria no valor de R$ 1.434,25, benefício nº 143.962.027.883.265. Estamos entrando em contato para informar que…

— Qual é mesmo o seu nome, minha filha?

— Valéria.

— Não era Valmira? Não, Verônica? Deixa pra lá, tanto faz. Eu quero saber onde, como e porque você tem meu nome, telefone e todas as informações da minha aposentadoria.

— São os dados cadastrais do Banco, Dona Lourdinha. Olha, nós temos aqui vinte mil reais disponíveis para a senhora –hoje mesmo. É só falar “SIM”!

— Eu nunca tive conta no Banco Abacate, minha conta é no Banco Tomate. E você ainda não me falou onde, pelo amor de Deus, pegou meus dados que eu não sou mulher de andar por aí na boca de qualquer uma.

— Ah, Lourdinha, vai se prender a detalhes quando pode botar a mão numa grana preta?

— Como assim? Com quem você acha que está falando? Não lhe dei liberdade, sua mal educada. Nunca mais ligue para minha casa ou eu chamo a polícia.

— Mas, Lulu, vai perder a oportunidade da sua vida…

— Tenha um bom dia, menina.

A senhora tremia como se alguém tivesse arrombado sua casa e a encontrasse pelada fazendo alongamento.  Respirou fundo e tentou voltar para sua costura, mas o telefone não parava de tocar. Era fixo e celular o dia inteiro. Banco Alecrim, Financeira BerinJela, email de pessoas e lugares desconhecidos, caixa de correspondência lotada de cartas oferecendo todo tipo de empréstimo consignado e academia para a terceira idade. Os porteiros e vizinhos já a cumprimentavam pela aposentadoria. A síndica do prédio, que nunca lhe dirigiu a palavra, indicou uma sobrinha que trabalha numa agência de viagem. O porteiro deu dica da ótica com desconto para aposentados e na padaria, que frequenta há vinte anos, deram-lhe um cartão fidelidade. Uma cuidadora bateu na sua porta por indicação do italiano da banca. Vinha gente querendo vender de liquidificador a terreno na praia.

Dona Lourdes passou a alternar as noites entre a insônia e os pesadelos de telefones tocando dentro de sua barriga. Em pouco tempo uma gastrite lhe tirou totalmente o gosto pela comida e as energias foram junto. Passou a não atender mais a porta,  desligou o celular e tirou o fixo do gancho, logo não recebia mais visitas e nem ligações indesejadas; mas também não recebia clientes. Foi amolecendo em frente à televisão e encostando a máquina de costura.

Quando a vida já ameaçava visitá-la apenas como uma névoa distante, Dona Lourdes despertou da letargia, pegou o telefone e ligou para o INSS:

— Moça, o que eu preciso fazer para me desaposentar?

 

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.