Crônicas

A arte de desler

Adalberto dos Santos

(Primeira aula)

Há leitores e desleitores. Quem nunca ouviu falar em desleitura deve estar louco, ou não entende nada de educação. Ler é fácil, o olho fica aberto, as mãos viram as páginas, mas… e o resto?

O resto resta no livro, no quadro, no filme, na canção, na paisagem, no poema, no olho do outro, na palavra, na vida. Ficou o que deveria ter vindo para fora, ser libertado das amarras do mito para a história de quem se pôs a decifrar o mundo.

Mário Quintana acertou quando disse que o difícil para quem lê é conseguir desler. Na verdade, uma idéia bem sabida é a chave que abre a porta do segredo que qualquer mensagem oculta. Por isso nem todo mundo é capaz de desler. Nem qualquer um consegue ensinar a desler. Nossos professores ensinam a ler, mas não ensinam a desler. Digo que ler a frase “uma idéia bem sabida é a chave que abre a porta do segredo que qualquer mensagem oculta” basta um par de olhos e um saber de escola. Desler, no entanto, exige 1) distância e alcance. Só consegue quem tem 2) senso, 3) sabedoria, 4) dúvida, 5) certeza, 6) inteligência e 7) sensibilidade.

1 – o longe, o aqui

Quem se distancia não quer dizer que abandonou o bonde a meio caminho. Pelo contrário, chegou onde deveria chegar. Tomou distância para ver melhor (às vezes o perto não deixa que eu veja as coisas da melhor maneira). O leitor é facilmente enganado com a facilidade do gesto comum a todos. É partidário do ponto de vista vulgar, do cego que acompanha a lógica eminentemente normalizada do(s) cotidiano(s). O que se convencionou basta para que eu o aceite como certo: é a lógica que determina a postura sobre a qual as coisas devem ser conhecidas, de perto, sob o risco de não se enxergar direito. À distância, no entanto, eu me ponho além do olhar que não é meu, e posso enxergar a partir do meu próprio campo de visão. Tomo distância e alcanço a coisa sem que minha experiência perca a totalidade dela.

Esse é o primeiro passo para a desleitura. Nesse ponto eu já posso me dispor à busca do sentido, pois fui capaz de sair da confusão de olhares à certeza da dúvida.

4/4 – se sei, se não

O desleitor sempre pergunta se está vendo bem, não confia no primeiro olhar… Ora, a percepção imediata de uma dada realidade é impossível sem que passemos pela conveniência da suspeita ou da desconfiança de que algo está absolutamente certo. Mais ainda: a dúvida é importante para a percepção do não percebido, o não apreendido duranteo processo de compreensão e depois.

Acontece que o leitor errou por não ter corrido o risco de perguntar se havia entendido aquilo que leu. Ele só leu, não desleu.

Eu guardo comigo o número zero da revista Leitura: Teoria e Prática, da Associação de Leitura do Brasil, de 1982. Trouxe de um dia em que visitei uma escola pública para uma palestra; estava jogada dentro de uma lata de lixo entre livros e outros objetos da biblioteca da escola. Alguém a pôs lá, e na certa via a revista como mais um objeto velho que atrapalhava, por isso não tinha nenhuma utilidade. Estava lá, no lixo, ela e o pensamento nela, do Paulo Freire, que me chamou a atenção assim que a peguei. Para mim, que sou desleitor, essa revista me foi muito útil. Com ela desli uma coisa que meu olhar de outros tempos não havia percebido: eu descobri que os professores estão somente ensinando a ler nas escolas.

O Paulo está sendo entrevistado e dialoga comigo, ao mesmo tempo em que descreve a importância de a gente afirmar com coragem que não entendeu o que se leu. Ele não diz como eu falo agora, mas quando pensava, na certa brincava de desler com meus amigos professores.

Eu também quero brincar com eles, porque muitos, nesse ponto de meu texto, devem estar chateados com essa história que eu disse sobre eles, que eles ensinam a ler, mas não ensinam a desler. Por isso eu pedi ao Paulo para me ajudar nessa parte, que é a mais difícil de entender, digo, de desler. Gostaria que vocês escutassem o que ele diz:

“Você não ensina propriamente a ler, mas o que você pode é testemunhar ao aluno como você lê e o seu testemunho é eminentemente pedagógico. Só que a gente corre riscos… que às vezes alguns de nós, professores, não quer correr. É o risco de numa leitura, em certo momento, numa leitura geral de um texto (grifo), cuja totalidade você percebeu, como professor você é capaz de discutir, você passeia em cima daquele texto, mas há um certo momento da totalidade daquele texto que você não entrou, que você não conseguiu apanhar. É o risco da gente, que a gente às vezes não quer correr, é um risco tão simples de ter a coragem de dizer que também não entendeu. Então, eu acho que um dos princípios fundamentais pra ler é aceitar que não entendeu o que se leu.”

Em miúdos, a idéia do Paulo é a idéia da desleitura: a arte de ler completa-se na arte de desler. Quem deslê não aceita em absoluto qualquer tipo de leitura, qualquer compreensão, seja própria ou alheia. É preciso em seguida à leitura, uma supraleitura, ou: a desleitura.

(Segunda aula)
2/7 – sentir… com cuidado

Desler requer uma porção mínima de juízo: nem muito nem pouco, mas juízo. O suficiente para que ao me decidir conhecer uma coisa eu já encontre o entendimento antes mesmo de obtê-lo.

Se e fácil ler, difícil é sentir a leitura. Só sente quem deslê. A sensibilidade acompanha o ato de compreender qualquer coisa. Se não me envolvo sensivelmente com o objeto de minha leitura, dificulto a passagem do seu mundo para o meu mundo pessoal. É também pelos sentidos que a idéia faz sentido. Antes de saber o que é, devo provar com meu corpo todas as sensações de que sou capaz para que a experiência venha a se tornar uma experiência verdadeiramente agradável. Numa ocasião em que você experimente seu corpo sorrindo de prazer quando de uma descoberta, pode estar certo que é um indício de que você está deslendo. Sim, o corpo acompanha a desleitura. Caso ocorra o contrário, você pode estar simplesmente lendo, como fazem os intelectuais, que são tidos assim porque são inteligentes.

(Segunda aula)
2/7 – sentir… com cuidado

Desler requer uma porção mínima de juízo: nem muito nem pouco, mas juízo. O suficiente para que ao me decidir conhecer uma coisa eu já encontre o entendimento antes mesmo de obtê-lo.

Se e fácil ler, difícil é sentir a leitura. Só sente quem deslê. A sensibilidade acompanha o ato de compreender qualquer coisa. Se não me envolvo sensivelmente com o objeto de minha leitura, dificulto a passagem do seu mundo para o meu mundo pessoal. É também pelos sentidos que a idéia faz sentido. Antes de saber o que é, devo provar com meu corpo todas as sensações de que sou capaz para que a experiência venha a se tornar uma experiência verdadeiramente agradável. Numa ocasião em que você experimente seu corpo sorrindo de prazer quando de uma descoberta, pode estar certo que é um indício de que você está deslendo. Sim, o corpo acompanha a desleitura. Caso ocorra o contrário, você pode estar simplesmente lendo, como fazem os intelectuais, que são tidos assim porque são inteligentes.

6/3
leitor é gente que inté lido é

Eu falei de intelectuais, não? Pois bem, os intelectuais lêem porque são inteligentes. E ler é um ato de inteligência, sem dúvida. Mas desler é ato de inteligência e sabedoria. Disse um historiador inglês (Trevelian) que a escola criou uma imensa população com faculdades incríveis para ler, mas não conseguiu dotar tal população de capacidade para escolher, entre os vários objetos de leituras, o que vale a pena ser lido. Ao leitor interessa a quantidade das coisas que lê. E quanto mais leitores a escola cria, maior o número de coisas feitas para o leitor comum, especialmente fabricado pela escola: intelectual. O desleitor, não; este liga para o aspecto quantitativo da leitura, ele vê a qualidade da coisa. Desta forma é inteligente, como o leitor da escola, mas também é sábio – porque distingue, discrimina, questiona o valor daquilo a que se dispôs a conhecer. Não se vê um demente, vítima das armadilhas da fome de ler de que sofre um intelectual. Por parecer, mas não, o desleitor não é um alienado, é vivo, sabido, esperto e prudente, modesto e poeta fingindo somente um simples leitor.

(Terceira aula)
“uma idéia bem sabida é a chave que abre a porta do segredo que qualquer mensagem oculta”

O leitor tudo lê, o desleitor tudo pergunta se é bom para ler, se vale a pena ou não. Por isso o primeiro facilmente adoece, é míope; os olhos através dos quais vê o mundo diferem dos olhos do desleitor.

O desleitor tem um sentimento de leitura, o leitor, conhecimento dela. A curiosidade e o prazer guiam quem deslê, o leitor é levado pela ambição do saber e pela perplexidade. Deslê quem questiona o que, por força do hábito, induz ao silêncio. O leitor é o silêncio. O leitor olha e nem sempre consegue ver, o desleitor vê e se vê sorrindo do espanto que a arte lhe deu.

Outra vez Paulo Freire: leio porque ler é reescrever. A quem novamente traduzo: desleio porque desler é o além do lido, é dar sentido àquilo que me faz saber, savoir, voar, sentir, ser o que sei da vida. Por isso, desler também é: óculos que corrige os graves defeitos de visão do mundo. Deslendo significo coisas que só lendo jamais conseguiria.

“uma imensa população com faculdades incríveis para ler”

Discordo de quem diz que na escola devemos ensinar somente a ler. Se assim for, continuamos a gerar cérebros demasiado inaptos a ver e sentir o mundo. Há uma complexidade de valores humanos nunca apreendidos por nossos alunos enquanto estão na escola, e depois que saem dela. O sentimento do belo, o dever de justiça, o cuidado com a vida em todas as suas formas, o respeito às diferenças, o carinho pelos velhos, o amor às crianças, a grata surpresa diante da beleza e das alegrias da vida – essas coisas nem sempre acompanham a trajetória de nossos leitores. E o que dizer das decisões mais importantes a serem tomadas na prática diária de sua vida social e particular… os pequenos gestos, as atitudes que exigem a mais sutil sabedoria, as escolhas, o jogo do certo e errado que nos marcam a todos?

Em muitas de nossas escolas há tanto mais aula de leitura e pouca compreensão da vida como ela se nos apresenta a nós: única e merecidamente disposta a ser muito melhor aproveitada. Minha angústia da educação dos leitores é quando vejo determinados professores fazendo propaganda de um ensino que não ensina a desleitura; um ensino que cega os leitores e não deixa que eles vejam o mundo com a saúde de quem vê muito bem as coisas. Só um ensino do olhar pode curar a miopia de uma geração que é incapaz de aproveitar melhor suas leituras, só um ensino de desler.

Até agora, como aluno e como professor, vi pouco resultado na formação dos leitores da escola. Aquilo que se aprende, às vezes não corresponde àquilo que se sabe de verdade, ou que se poderia saber. Acho que em vez de ensinar a ler, deveríamos ensinar desleitura: para que o avesso das coisas se descobrisse, e os nossos alunos vissem o mundo de uma outra forma. Nós mesmos, professores, poderíamos enxergar melhor, pois há muita coisa no livro que não vem à tona quando a educação reclama sua eficácia.

Talvez se nos deseducássemos das leituras mal realizadas, lêssemos melhor e mais inteligentemente. Mas para isso seria interessante fosse decretado o direito de desler na escola. Em vez de LDBs e coisas do gênero, em vez de tanta coisa junta ao mesmo tempo agora e sempre e até mal, uma síntese para a chave do segredo que todo leitor procura:

Deseducação

Art. 1º Parágrafo único. Em vista do insucesso dos currículos, métodos, técnicas e recursos educativos atualmente praticados, todas as escolas obrigam-se a ensinar a desler, arte difícil, mas possível. Todos têm o direito de desler.

Quando isso, fim de nossas aulas, de nossa angústia,

(Hora do recreio…)

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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