Crônicas

A aula na esteira de malas

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

Sábado, oito horas de manhã de Sol, avisando: Vou chegar a pino!!

Enquanto a maioria dos nativos dirige-se em hordas às praias, cinqüenta almas acomodam-se nas cadeiras canhoto-que-se-ferre para a aula-revisão-simulado de língua portuguesa. Nos olhares vagos no teto, no chão, no ar quente e em cada testa está escrito: Por que eu matei aquela aula da tia Samaritana na quarta série? Para trocar figurinha ou para jogar queimado? Nunca saberei…Seria possível desvendar os mistérios da língua-mãe nas próximas cinco horas?

Não desiste não! Não desiste não!

O mestre negão entrou na sala, cheio de vontade. Só na entrada, tirou metade da turma do limbo e o restante prometia. Exercício vai, explicação vem, pergunta vai, resposta vem. Sempre tem na turma uma mala que sabe tudo, antes mesmo das demais babas reticentes entenderem a pergunta, a encomenda empacotada responde tudo certo. Uma vaga já é dela. A auto-estima já no dedão, escorre para o cantinho da unha encravada. Vai ser de lascar.

Advérbio vem, conjunção vai, semântica vem, gramática vai e lá está outro ilustre representante da indústria de bagagens, imbuído de pernósticas intenções de aparecer ou fazer o mestre desaparecer, fuzilando esta:

Olha só… Há controvérsias…!!!

Trata-se de outro tipo de mala – na verdade uma polchete de napa – inversamente proporcional à primeira representante que ostenta a alcunha de mala de legítimo couro. De porco encerado, tinindo.

Controvérsias e idiotices esclarecidas; driblada a esteira de aeroporto, o mestre segue firme em seu propósito de acrescentar luz na mina escura. Coisa de Mito da Caverna. Ele deve ter uma coleção de malas no currículo. Troço louvável, deveria ser canonizado em vida.

Hora da merenda. Pausa para desopilar o fígado porque tem mais!

Pensa bem…O cara está desempregado, devendo o cheque especial, estudando o que já deveria saber e ainda tem de administrar a concorrência leal? Deve ser pré-requisito, sei lá, a inteligência emocional tão em voga neste mundão globalizado.

Não desiste não! Não desiste não!

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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