Crônicas

A chuteira

Adalberto dos Santos

O caso foi de dar vexame a mim e ao outro, um companheiro de trabalho, a quem a família (principalmente os filhos) consegue vez ou outra tirar do sério. Ele não poupa os amigos da repartição de participar o que vai correndo lá nas intimidades de sua gente, pai e filho, irmã e irmão, esposa, família. Mesmo se quisesse, não conseguiria. Quando há problema, o pobre bem que deseja esconder, mas não consegue. A cara amarrada e tristonha entrega que a coisa em sua casa não anda nos conformes.

Quando ele entrou na copa da repartição para preparar café pros nossos, eis que o acompanho cantarolando uma música cuja letra não era pro momento. Estava eu doido, somente. Cantei aquela bonita, mas, naquele instante, desagradável melodia do Raul Seixas que diz “olha o teu filho, meu pai”. Não queria bater na cabeça do cara ou fazê-lo mal a todo custo. Fui um inocente sem nenhuma intenção. Apenas não li em seus olhos que andava ruim à beça por causa “desses problemas lá de casa”.

E eis, pois. Sem que esperasse, o amigo surpreendeu-me com a história, interrompendo os versos e o refrão que já ensaiava repetir em sua frente. Estava fulo com o filho que, pela enésima vez, havia sido suspenso da escola. Idade: 14 anos. “Mas um brincalhão. Que não sabe se comportar com seriedade como manda o figurino. Um tolo que só tem tamanho. Só pensa bobagem e é só o que faz para mim e a mãe dele”.

Com toda a mansidão de que é feito, ele desabafou com lágrimas nos olhos. Porque aquela não era a primeira vez. Não sabe quantas compareceu à escola para tomar conhecimento das gaiatices do filho. A partir de então ele que decidisse, se queria estudar ou não, se iria levar a sério a coisa da escola ou apostaria toda a vida nesse negócio de futebol! Já conversara com a esposa, e decidiram: não mais.

Dizendo isso, pediu licença para comparecer ao colégio. Uma reunião estava marcada. No outro dia me confessou mais calmo que o filho havia lhe pedido uma chuteira nova. E você a deu? Sim, horas atrás havia comprado uma em quatro vezes.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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