Crônicas

A CONTRADIÇÃO DO QUE SOMOS

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Duas palavras giram sobre minha cabeça quando penso esta crônica. A palavra “ser” e a palavra “humano”. Ser humano.

Mas o que somos de verdade?

De acordo com o dicionário, “ser” significa ter identidade, característica ou propriedade intrínseca. Segundo o mesmo dicionário, “humano” significa tudo o que é relativo ao Homem. Diz ainda que o ser humano difere de outros animais por usar a razão. Também aponta que esta mesma palavra pode ser usada como adjetivo e, nesse caso, possui o sentido de bondoso, generoso, compreensivo ou tolerante.

Ao juntar as duas palavras, temos, conforme as páginas do mesmo livro, espécie viva dotada de inteligência e razão. Suas características físicas são: um tronco, dois braços, duas pernas e uma cabeça.

Entretanto, contrariando as palavras e seus significados, somos o oposto!

Somos egoístas e não olhamos para além de nossos umbigos.

Somos preconceituosos e não admitimos diferenças. Diferenças? Todas são tratadas como algo estranho, às vezes, abominável, terrível e ameaçador!

Somos distantes e somos frios. Não nos interessa o que o outro sente. Não nos interessa o que o outro diz!

Somos corruptos! E o fruto da corrupção nos corrói e corrói nossos filhos e corrói o que outrora chamávamos futuro!

Somos irascíveis! A qualquer tempo, sem muita explicação ou sem explicação alguma, não usamos a razão, usamos o braço, as armas ou o discurso ferino e fatal!

Somos incompreensíveis e altamente intolerantes! Cerceamos, doutrinamos, expulsamos, delimitamos e fazemos isso e aquilo conforme o interesse ou situação!

Usamos mais os braços para bater do que para abraçar!

Usamos mais as pernas para perseguir do que para caminhar!

Resguardamos o tronco da bala, da faca e dos sentimentos! Protegidos em bolhas, condomínios, ilusões e pretensões…

Quase não usamos a cabeça! Quando usamos, destruímos o mundo com ideologias, muros, verdades e símbolos…

E novamente os braços são usados para legitimar as ideologias, para erguer mais muros e apontar verdades!

No entanto, a característica ou propriedade mais marcante em nós seja justamente a contradição.

Somos, intrinsecamente, contraditórios!

E a beleza humana está, justamente, nesta contradição!

Somos também amor e bondade e leveza e honestidade e um sem fim de coisas boas que fazem valer a pena nosso tempo neste lugar…

Somos braços que salvamos vidas em enchentes e desastres.

Somos mãos que seguram firme e dão a certeza do apoio e da esperança.

Somos pernas que levam alimentos a todos os cantos do planeta!

Somos pés que caminham lado a lado com quem precisa.

Somos cabeças que inundam o espaço de poesia, música, palavras como enfeite, palavras como pão, palavras como abraço e palavras como coração.

Ser humano, a contradição da contradição.

Ao terminar esta crônica, penso que precisamos ser mais do último grupo!

O mundo já anda muito pesado e tenso com suas bombas e armadilhas cotidianas.

É preciso engrossar as fileiras do humano humano e deixar de lado o humano fera, o humano idiota ou o politicanalha!

Afinal, o que estamos sendo? O que precisamos ser?

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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