Crônicas

A Corda de Repente para o Cordel!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ler um cordel. Sempre gostei. Um dia não muito distante, mesmo sem ser repentista ou coisa que o valha, fui desafiado por um poeta e amigo e parceiro: “Estou com um mote na cabeça, ele me disse, aceita o desafio?”.

Aceitei.

Isso faz tempo. Um tempo em que o “mote” não passava de descoberta de somenos importância. Ah, para mim. Desafio poético? Também. Em síntese: todas essas coisas que falavam de “cantador de viola” e outras desse universo poético. Sem exceção. Eram todas de somenos importância.

Mas, assim como vocês leram – ou não – no inicio destas mal-traçadas, aceitei o desafio. O “desafiante”? Repito: o melhor intérprete destas plagas, compositor e poeta refinado, Gil de Rosa. O mote? “Limpem o ouvido, usem colírio na visa, deem o valor que merece o violeiro”. Se achei arretado? Tanto que aceitei o desafio.

Mas, aqui, nesse exato momento, não vale a pena lembrar o desafio que me fora feito, e eu topei. Outros desafios na vida, a minha, essa nada de Severina, diferente desse, inspirado na necessidade de o público respeitar o violeiro, o autêntico, esse com a viola cheirando a terra seca do meu Nordeste, teria que enfrentar. E enfrentei.

No entanto, por aqui, centro da capital parahybana, essa seca que tanto mata quanto e castiga o nordestino, forte como o jangadeiro cantando em prosa – nada de versos – por outro bom nordestino, o “menino de engenho” Zé Lins do Rego, também inspira o sertanejo e o faz acreditar que o “novo sempre vem”, obrigatoriamente, anunciar um novo dia. Não lhe deixando, porém, naquele torpor parasita a esperar que o maná caísse do céu. Ele luta. Amansa a terra. Molha de suor a semente. Agradece a Deus pela sua disposição de mudar o que pode ser mudado, e aceitar a impossibilidade de mudar certas coisas. Algumas. Poucas.

Repito: gosto de viola. O som. O canto – não raras vezes, um lamento – do violeiro desfiando a sua vida em repentes e improvisos. Repentes. Fã. Sou. Por isso leio repentes. Sempre. Paro em motes. Invento desafios. Sozinho no meu canto. Canto. E, se escuto aqui ou em alhures um contracanto, não desafino. Tudo de repente. Tudo pelo Repente.

Zé Cardoso. Quem nunca ouviu, de repente ou não, desse cantador norteriograndense? Desse inspirado instrumento de Deus? Sim. Instrumento! Não passamos disso: instrumentos. Todos. O repente, assim como a música, pois em musica se transforma também, estar por ai, solto no ar. Mas não pense que é daquele que pegar primeiro. O samba? Também não. Esses também tem “Dono”. Esses são apenas instrumentos.

Literatura oral. Cordel. Literatura de cordel. Aqui ou em alhures. Em Portugal. Neste verde-amarelo e musical país do carnaval. Ele, o cantador, canta dor… Dores. Mas não guarda mágoas. Nunca. Se guarda. Espera o próximo desafio. Vive de desafios. Todos. Se for preciso, auxiliado pela sua viola ou raramente um pandeiro, faz o seu canto. Vira um Inácio da Catingueira.

Leio cordel. O mote: “Limpem o ouvido, usem colírio na visa, deem o valor que merece o violeiro”. Os versos do parceiro e amigo e irmão Gil de Rosa ecoam nos ouvidos. Os meus. E assim seguem embalados por uma viola chorosa abrindo um sorriso na boquinha da noite.

“Tudo que vou contar nesse momento/Nunca foi improviso ou Repente/Vou partir pra você com unha e dente/E provar que você é cego e surdo/Você pode ser médico ou dentista/Economista, um físico, engenheiro/Ser doutor, pintor ou motorista/ Ser lascado ou ter rio de dinheiro/Limpe o ouvido, use colírio na vista/Dê o valor que merece o Violeiro”!

E vem à memória os cantadores Zé Cardoso e Sebastião Dias. E quem não nunca leu ou ouviu a história desse famoso desafio, disputado por essa famosa dupla? Conto.

Sebastião era “doutor”. Letrado. Anel no dedo. Assim como o Bozó do Chico Anysio, todo orgulho, dizendo a todos ser da Globo. Porém, ao sentir que estava perdendo o desafio para Zé Raimundo, um “analfabeto”, Sebastião resolveu encerrar a cantoria, alegando não ter “mais saco” para estar ali com quem não tinha “anel no dedo”.

Pausa. Hoje os cantadores, muitos, perderam a espontaneidade. Leem enciclopédias, decoram “lusíadas” e envergonham a pobre viola com poses de “eruditos”. Pois bem. Mas, Zé Cardoso, porém, pela vez dele, também não se “orgulhava” do seu “analfabetismo”. Nunca. Apenas usava a sua – dele – viola como “diploma”, para mostrar o que aprendeu na vida, e acrescentar que nenhuma universidade seria capaz de lhe ensinar o que com ela, a viola, aprendera.

Os presentes viram e sentiram que ele, Sebastião Dias, fora derrotado. Foi ai que Zé Cardoso, numa das mais espetaculares respostas já vistas e ouvidas entre os cantadores desse meu belo e amado – por mim, por mim – Nordeste, saiu com essa pérola:

“Aprendi a cantar sem professor/ com a graça de Deus eu sou completo/ Você vem me chamar de analfabeto/ Exibindo seu diploma doutor/ No congresso que eu for competidor/ Vou ganhar de você de 10 a 0/ Bastião eu vou lhe ser muito sincero/Se eu deixar de cantar não sou feliz/ ser poeta eu sou porque Deus quis/ Ser doutor eu não sou porque não quero.”

Não me canso. Nunca. Cantador. Canta dor. Canta dores. Repentistas. Improvisos. Poemas de cordel. Poderia ter nascido distante desse Nordeste em que nasci e vivo. O lugar? Seria o menos importante. O repente. O improviso. A rima. Histórias escritas e penduradas em cordas. Ou cordéis. Todas. Sem exceção. Todas estariam comigo. Sempre.

A melodia dos recitadores desses folhetos entra nos ouvidos deste nordestino como a mais forte e original entre todas. Suas histórias e rimas me dizem mais que os “boleros” que escuto e arrasto estes pés atrevidos que insistem em se arrastar somente xote e xaxado. Por ai. Não adianta: “Limpem o ouvido, usem colírio na visa, deem o valor que merece o violeiro”!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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