Crônicas

A culpa é do Lula

Adalberto dos Santos

Esse texto foi escrito em 2010, antes das eleições presidenciais daquele ano* 

O Lula não deixa de acompanhar a Dilma país afora: é como se a candidata a presidente fosse o próprio presidente. E a todo o momento explode, grita e gesticula à menor contradição que lhe escape. Não suporta mais as críticas. O motivo já é conhecido: Lula está com a síndrome do pânico de não mais ter poder. Chegou a um ponto em que teme tanto perder o poder no Brasil que fez da Dilma um arremedo de candidata ideal, estigmatizando-a como um Jesus Cristo, assim como outrora fizeram dele as elites petistas.

A popularidade que alcançou em razão da política de controle das massas fez de Lula pior. Ironicamente parece que o mérito do bom governo deu a ele mangas curtas de nervosismo. É que o Lula está mal. Está sofrendo. Digo daqui olhando a televisão que o poder virou a cabeça do pau-de-arara mais sortudo que este país já teve.

O presidente está se achando. Eu quando vejo político desse tipo fico com medo. Tenho medo da arrogância que confunde popularidade política e populismo barato. Sou crítico se o coronel passa a se achar dono do mundo e caga para tudo, se a todos vê como se o universo fosse a circunferência do seu próprio umbigo. Sinto medo e vergonha: um rei jamais deveria ser comparado a um deus.

Pobre do Lula. Uma vez era um homem humilde e sensato. Agora perdeu de todo a noção. Não haja quem contenha o presidente e logo ele perderá de vez o juízo. Ficará doido até o fim da campanha? Não, que Deus o proteja. Afinal, tudo o que Lula quer é que o PT continue a mandar no Brasil, mesmo que até as eleições tenha que posar de palhaço para uma plateia cada vez mais encantada com a demagogia de seu governo salvador da pobreza.

Tá certo, o país mudou. Como diz a campanha, o Brasil avançou em várias áreas. Mas depois de tudo faltou humildade no Lula. Após expulsar dissidentes partidários como a ex-senadora Heloísa Helena, o presidente paz e amor virou radical. Está intolerante. Seus discursos desde que a campanha tem estado num nível mais duro de debate é de um titã que tudo pode. Tem se mostrado agressivo, arrogante. Tem cutucado tudo quanto é adversário com vara curta.

Lula não consegue esconder que pretende ganhar a campanha a todo o custo para dar a si mesmo o prazer de se achar eleito pela terceira vez. Lula vê em Dilma a extensão da sua alma populista e pensa que ela perpetuará sua imagem de presidente dos pobres. Mas é mentira, a gente sabe quanto o PT, assim como qualquer partido, governa para os ricos. Bolsa Família é fachada para esconder uma miséria social que os indicadores não mostram. Quer miséria pior do que não ter os principais serviços públicos funcionando a contento sempre que se precisa? Um povo que come pizza e Coca-Cola com o dinheiro do governo não é feliz só por isso. E além de tudo ter um presidente que enlouquece em campanha, é dose.

Fica a imaginar se após eleger a Dilma como a mantenedora do partido no principal poder do país, Lula terá a mesma postura de agora, quando arregaça todos que se opõem aos seus excessos. Fica difícil acreditar porque Dilma, notadamente mandona, chefiará o Brasil com mãos de ferro. Será a nova Margaret Thatcher da política mundial. Chefiará de punhos fechados para todos, inclusive para o Lula. Anotem lá o que digo.

Haveremos de ouvir o Lula impaciente com a Dilma como hoje é a quem representa ameaça ao seu reinado encantado? Não dessa vez, porque Lula não será mais o pop star de agora. Será a vez da Dilma e teremos uma outra história. Isso se a Dilma ganhar. E se o Lula reclamar que a Dilma ganhou, não haverá o que discutir, o Lula saberá que, não dando certo, com antes e depois a culpa é do Lula.

Eu voto nulo, mas bem que o Serra poderia ganhar esta eleição só para calar a boca do presidente. E que nada do que os petistas prognosticam contra o tucano se realizasse. Que Serra fosse tão bom presidente quanto a Dilma seria se não pretendesse antes ser a cópia do Lula só para ganhar votos.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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