Crônicas

A Desobediência se viu

Anselmo Vasconcellos

Estamos próximos a declaração de imposto de renda. Notificações bancárias e de empregadores amanhecem na minha caixa postal. Inevitavelmente é um momento para questões diversas. Mas tem algo que sempre me vem à tona. Um “bicho carpinteiro” como dizia minha mãe quando me via sonhando acordado.

Desejo de romper com este vassalismo ao Estado e fugir para a natureza como fez o jovem filósofo americano, o transcendentalista H.D.Thoreau que após sua formatura em Harvard passou anos isolado num barraco às margens do lago Walden. A contemplação e o trabalho natural vinculado ao prazer construíram neste jovem abolicionista do século 19 uma poética e consciente visão. Atravessou o tempo e influenciou ativistas influentes, como Mahatma Ghandi, Luther King e Daniel Ellsberg e o movimento dos Hippies. Continua atualíssimo, constato relendo-o.

Na floresta do alheamento este jovem descreveu em palavras a relação que um homem pode ter com a sociedade em que vive. Por elas refutava as banalidades do jogo social que entorpecem nossas mentes. Contrapunha a beleza da observação, a necessidade e o elo profundo dos homens com a natureza.

“Para Thoreau, as máquinas eram engenhocas que tornavam a vida tão complicada que se tornava difícil viver, elas são fardos que os homens carregam nas costas (…). Sugam os empreendedores que as constroem.”

Em uma de suas poucas idas a cidade, no almejo de consertar suas botas foi preso por guardas, em 1846. O motivo da prisão: Thoreau se recusava a pagar seus impostos. Passou uma noite na prisão e foi libertado graças a um amigo que pagou seus impostos, apesar de seus protestos.

Desta atitude política nasceria, três anos depois, sua obra mais popular Desobediência Civil. Eis um fragmento do livro:

“Quando converso com os mais livres dentre os meus vizinhos, percebo que, independentemente do que digam a respeito da grandeza e da seriedade do problema e de sua preocupação com a tranqüilidade pública, no fim das contas tudo se reduz ao seguinte: eles não podem abrir mão da proteção do governo atual e temem as conseqüências que a sua rebeldia provocaria nas suas propriedades e famílias. Da minha parte, não gosto de imaginar que possa vir algum dia a depender da proteção do Estado. Mas se eu negar a autoridade do Estado quando ele apresenta a minha conta de impostos, ele logo confiscará e dissipará a minha propriedade e tratará de me hostilizar e à minha família para sempre. Essa é uma perspectiva muito dura. Isso torna impossível uma vida que seja simultaneamente honesta e confortável em aspectos exteriores. Não valeria a pena acumular propriedade; ela certamente se perderia de novo. O que se tem a fazer é arrendar alguns alqueires ou ocupar uma terra devoluta, cultivar em pequena escala e consumir logo toda a sua produção. Você tem que viver dentro de si mesmo e depender de si mesmo, sempre de mala feita e pronto para recomeçar; você não deve desenvolver muitos vínculos. Até mesmo na Turquia você pode ficar rico, se em tudo for um bom súdito do governo turco. Confúcio disse: “Se um Estado é governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são fatos acabrunhantes; se um Estado não é governado pelos princípios da razão, a riqueza e as honrarias são os fatos acabrunhantes”. Não! Até que eu solicite um remoto porto sulino, que a proteção do Estado de Massachusetts me seja estendida com o fim de preservar a minha liberdade, ou até que eu me dedique apenas a construir pacificamente um patrimônio aqui no meu Estado, posso negar a minha lealdade ao governo local e negar o seu direito à minha propriedade e à minha vida. Sai mais barato, em todos os sentidos, sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer. Obedecer faria com que eu me sentisse diminuído.”

Reler este manifesto contundente em defesa do Direito à Rebeldia me faz pensar nas condições que vivo-imposto e que necessito questionar no Estado Brasileiro.

Um vento sopra as páginas do livro no canto da mesa de trabalho. Como se fosse um I Ching vou ler o que está na página que o vento abriu para mim, vejo-a como a um hexagrama-thoreau:

“A minha origem é nobre demais para que eu seja propriedade de alguém. Para que eu seja o segundo no comando  ou um útil serviçal ou instrumento de qualquer Estado soberano deste mundo”.

Necessito de uma caminhada, penso na minha situação. Lembro do mestre Amir Haddad, um príncipe do teatro, me dizendo da importância de se exercer a indignidade.

Levanto para sair mas antes me deparo com este fragmento de ken Goffman :

“Thoreau não idealizava a libertação da humanidade, ele sonhava com a liberdade para os poucos que a escolhessem conscientemente”

Como sempre me faz ver a amiga Bia Sion:
“são os sinais… ”
e saio…

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Sobre o Autor

Anselmo Vasconcellos

Anselmo Vasconcellos

Ator, diretor e dramaturgo.

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