Crônicas

A dialética do Fluxo Temporal de Fernando Roza

Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

“A arte é intemporal embora guarde
a fisionomia de uma época.”
Iberê Camargo

O tempo foi, é e continuará sendo um dos grandes temas da arte, não há quem duvide disso. O que talvez possa nos surpreender é a inusitada abordagem do artista visual Fernando Roza (RJ), com sua obra Fluxo Temporal, e sua individual de gravuras Umbrais Oníricos, que nos convida a refletir sobre o fenômeno da temporalidade das coisas e de como o transitório afeta nosso aqui e agora.

O autor opta por questionar a substância abstrata do tempo com uma evidência bem material, ou seja a matéria-prima de sua obra visual constitui-se de páginas carcomidas de livros antigos, onde fragmentos de textos – arcaicos, portanto anacrônicos – somam-se a restos de imagens, fotografias, que por si só representam o desejo de perpetuação na história. O papel envelhecido, aqui torna-se menos um suporte da obra, que testemunha da evidente ação cronológica sobre a matéria, confirmando que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, como nos lembra o velho Marx, em nossa “modernidade líquida”, como nos lembra o atualíssimo Bauman.

O conjunto de páginas corroídas, apresentadas no formato de instalação, parece ainda nos provocar com uma certa metalinguagem, já que trata-se de restos de antigos livros de arte. Uma possível leitura aponta para uma justaposição temporal, ou seja, apresentar hoje textos e imagens d’outrora, tratando de arte, reconfigurados em nosso momento presente, numa exposição de arte, num continuum onde o início dessa frase já é passado e as palavras que ora desfilam diante de seus olhos já pertencerão ao passado quando você chegar ao próximo parágrafo. Então, se existe um questionamento sobre a incidência temporal na matéria, podemos ainda desconfiar que essa questão tensiona ainda os conceitos de arte presentes em nossa contemporaneidade, da mesma maneira que deixa em aberto a reflexão: quanto desses conceitos permanecerão no futuro?

Jorge Luís Borges afirmava em seus ensaios antológicos que “o tempo não existe, é apenas uma convenção”. Possivelmente, neste caso, a arte não exista, mas seja a própria obra uma convenção também, para nos lembrar da efemeridade de nossa existência diante da utopia da eternidade, ou ainda uma menção da inexorável e invisível ampulheta na qual estamos todos imersos. Fluxo Temporal é constituída de resquícios de outros momentos, vestígios da ação do homem em outros instantes, ruínas textuais e imagéticas de algumas esquecidas felicidades, agora irrecuperáveis.

Na ação dialética a que Fernando Roza nos instiga, subjaz ainda outro atrito, ainda mais estridente que nossa relação com os calendários, ponteiros de relógios, datas em agendas, cronômetros digitais: uma conversa tête-à-tête com nossa indevassável e evasiva memória, senhora de nossos dias, guardiã de nossas biografias internas, testemunha primeira de nossas idiossincrasias e desejos. Essa fricção parece ainda nos lembrar que, se muitos ainda consideram a história da arte como uma sucessão de nomes, a partir daqui podemos ressignificar esse fluxo como uma sequência de processos, de propostas poéticas, de ações estéticas.

Já a série de imagens em preto-e-branco Umbrais Oníricos constitui uma coleção de desenhos manuais elaborados em técnicas variadas e reproduzidos em diversas modalidades da antiga arte da gravura, como Ponta Sêca, Gravura em Metal, Litogravura e Xilogravura. Embora o autor já tenha produzido desenhos, poemas, arte digital, videoarte e outras experimentações, optou pelo recurso das gravuras para plasmar seu universo onírico, constituído de seres fantásticos, numa atmosfera etérea, surreal e diáfana, onde dualidades como vida e morte, céu e inferno, luz e sombra pontuam a dança existencial.

Somos poeira de estrelas, dizem os cientistas e voltaremos a ser pó, dizem os religiosos. Enquanto isso encontramos nosso espelho no fluxo em que Fernando Roza nos observa, numa obra que nos absorve. E o resto é história. Carpe Diem!

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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