A ESTÚPIDA REPÚBLICA

by Campista Cabral | 28/09/2017 18:03

Escreveu certa vez Gregório de Matos, um dos primeiros grandes poetas brasileiros, no longínquo século XVII: Que falta nesta cidade?… Verdade. /Que mais por sua desonra?… Honra./Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.

Na distante cidade da Bahia, assim chamada Salvador, o nosso poeta observava já uma sociedade impregnada pela corrupção e pelo jeitinho. Mostrava, de forma inteligente e irônica, a mola propulsora da sociedade brasileira: a falta de ética nas relações e no trabalho. Concluía, em sua poesia, que O demo a viver se exponha,/ Por mais que a fama a exalta, /Numa cidade onde falta /Verdade, honra, vergonha.

A cidade da Bahia de que trata o texto, hoje, tranquilamente, seria o país nosso inteiro (ou sempre foi!!) Um país em que a corrupção está desde os atos aparentemente mais simplórios aos escândalos envolvendo milhões.

Já no século XVII, assusta o envolvimento de tantas figuras públicas no lamaçal político, econômico e religioso de então. Pobres e ricos. Negros e brancos. Homens e mulheres. Muitos burlavam as leis, escondiam crimes e dinheiro, além de se beneficiarem de certas informações.

No nosso tremido e veloz século XXI, repetimos a receita: roubo, aparências, altíssimos impostos e negociações escusas.

Mais uma vez o presidente da república é acusado por obstrução de justiça e formação de quadrilha. Mais uma vez o presidente da república é alvo dos holofotes criminais! Mais uma vez de tantas vezes e tantas vezes!

Nosso caro Gregório, tão espantado quanto eu, dizia: Valha-nos Deus, o que custa/ O que El-Rei nos dá de graça./ Que anda a Justiça na praça/Bastarda, vendida, injusta.

Desde os tempos de colônia, vivemos em uma terra de ninguém. Terra esta em que o poder de poucos determina a história, o sucesso e o fracasso de tudo o que pensamos, produzimos e sonhamos.

Desde os tempos de colônia, esta esfarrapada nação, paulatinamente, vai jogando no lixo gerações atrás de gerações.

Desde os tempos de colônia, assumimos o discurso de colônia, comportamo-nos como colônia e perpetuamos este espírito de miséria, degradação e fanfarronice!

Uma república aos frangalhos, de partidos rotos, de ideologias contraditórias ou de ocasião, de discursos inflamados, mas de pouca argumentação, esse é o país verde e amarelo, esta estúpida nação!

Do século XVII pra cá, Gregório, mais conhecido como Boca do Inferno (pela língua ferina e críticas bem humoradas), talvez reconhecesse o seu tempo como um tempo melhor do que o nosso, visto que hoje, com informação e discussão, fazemos a maior parte das coisas do mesmo jeito, ou melhor, do mesmo jeitinho!

 

Comentários

Curtir isso:

Source URL: http://cronicascariocas.com/colunas/cronicas/a-estupida-republica/