Crônicas

A fuga das ideias

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Tenho sempre muitas ideias, temas interessantes para as minhas crônicas. Isso até o momento em que me sento ao computador para escrever. Aí não tenho nenhuma.

O que acontece no intervalo entre uma coisa e outra? Sou atacada por crises de amnésia? Creio que não: o mais provável é que as promissoras ideias, de tão insignificantes, nem lograram fixar-se na memória.

Essa explicação não me convence porque, quando as tais ideias surgem, elas sempre me parecem ótimas. Além disso, sou quase uma especialista em recordar coisas insignificantes como, por exemplo, o número da matrícula de um fusca que pertenceu, há duas décadas, a um vizinho. Embora eu também seja especialista em esquecer fatos importantíssimos, vá entender. Fica o mistério.

Tentei recorrer ao surrado método de fazer anotações, tarefa que me pareceu fácil porque quase sempre tenho comigo caneta e um pedaço de papel. Funcionou um pouco, mas não muito. As ideias surgem e desaparecem tão rapidamente que não consigo retê-las se não as registrar de imediato. Isso é difícil de fazer escrevendo à mão e em lugares inadequados.

Só conseguia anotar uma ou outra palavra, no máximo uma frase, imaginando que serviriam para desenvolver o assunto mais tarde. Porém, na maioria das vezes, quando relia aquelas coisas esparsas, não me lembrava dos parágrafos que tinha mentalizado para uni-las e acabava abandonando tudo.

Como digito muito mais rápido do que escrevo à mão, tentei substituir o papel e a caneta pelo celular, mas enquanto eu me concentrava em abrir o aplicativo certo a ideia aproveitava para sair correndo. Desisti.

Tenho que me conformar: a inspiração só aparece quando quer. É por isso que todo o escritor, de vez em quando, revisita o assunto clássico da falta de assunto. Quem sou eu para desrespeitar essa tradição? Aposto que você, leitor arguto, já tinha desconfiado de que hoje não há crônica.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.