Crônicas

A internacionalização da Amazônia

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Quem nunca ouviu falar que a Amazônia será, um dia, internacionalizada? Pode ser um alarmismo paranóico, ou uma articulação conspiratória contra a soberania nacional, porém, esses boatos são mais verossímeis do que gostaríamos.

No ano 2000, uma mensagem varreu a Internet, acusando os EUA de incluírem nos livros escolares reproduções de mapas brasileiros onde a região amazônica constaria como parte de uma reserva florestal americana. Na época, isso ocasionou uma preocupação dos especialistas, e obrigou o governo brasileiro a buscar a veracidade dos fatos. Num relatório encomendado pela embaixada do Brasil em Washington, a origem do e-mail foi identificada, e comprovou-se tratar-se de uma fraude. Não obstante, o episódio acabou por reacender as discussões sobre os perigos iminentes de a Amazônia deixar de pertencer ao Brasil.

Acontece que o assunto é polêmico, mas também há um quê de verdade. Vejamos: a nossa Amazônia é a mais importante floresta tropical do planeta. Nela concentra-se metade das espécies existentes na Terra – pelo menos as conhecidas – e todas as superpotências mundiais têm o olhar voltado para a capacidade hídrica e mineral do seu solo. Conforme opina o cientista político, Pascal Boniface: “sendo a Amazônia considerada o pulmão da terra, se o Brasil não a protege corretamente, será dever dos outros Estados fazer a guerra em nome de toda a humanidade” (“As Guerras do Amanhã” (Lês Guerres de Demain), Editions dui Seuil, Paris, 2001).

Na visão de países como os Estados Unidos, a Amazônia precisa ser defendida para integridade da humanidade, quando de fato, o que eles cobiçam é o controle, com a alegação de que as florestas tropicais mundiais são “bens públicos mundiais” e deverão ser submetidas a uma “gestão compartilhada internacional”. Isso é conversa fiada, pois o Brasil é auto-suficiente para cuidar destas questões apenas na esfera nacional. Não que recursos oriundos de outros países sejam desnecessários, mas o que não podemos é abrir mão de controlar o que já é nosso.

Recentemente um fato chamou a atenção da sociedade ambientalista: o governo da Guiana, Bharrat Jagdeo, disse que vai negociar a reserva florestal do seu país em troca de um pacote de financiamentos para desenvolvimento sustentável. Segundo informou, a idéia é que a floresta da Guiana seja administrada por uma organização internacional da Grã-Bretanha. Essa vontade do presidente guiano aproxima o poderio internacional da intenção de apropriar-se da nossa reserva. Explico: como a Guiana pertence ao mesmo bioma, vizinhos como o Brasil correm o risco de fazer parte de uma investida internacional, cujo principal objetivo é controlar as riquezas ecológicas mundiais. É bom abrir os olhos para que o mesmo não seja feito com o Brasil. Até porque, neste caso, os Estados Unidos ganham terreno na luta para abocanhar o domínio de nosso território. De certa forma, já há uma invasão americana no solo brasileiro que se dá através da presença cada vez maior de seu exército na região, sob o pretexto de acabar com a força dos traficantes de drogas e armas nas divisas brasileiras.

Em Brasília, o governo começa a mexer-se para trazer à tona o debate sobre a importância de cuidar do futuro da Amazônia. Num projeto ousado, o ministro de Ações de Longo Prazo, Mangabeira Unger, lançou esta semana, uma proposta polêmica: Mangabeira pretende criar, entre outras obras, um aqueduto para levar água da região amazônica ao semi-árido nordestino, algo parecido com o que está sendo feito com o Rio São Francisco. Não sei se isso é viável, mas percebe-se o nítido interesse do governo de não aceitar a violação de seus direitos de administrar a Amazônia.

Qualquer que seja o caminho, certamente entregar a Amazônia aos cuidados de organizações internacionais não deverá ser a saída. Até lá, muita água vai escorrer pelos afluentes amazonenses.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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