Crônicas

A inveja como necessidade social (?)

Luciano Fortunato
Escrito por Luciano Fortunato

Disse o filósofo português Boaventura de Souza Santos “Temos, todos, o direito de sermos iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. E temos o direito de sermos diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza”. Vejo nisso um tipo de jogo limpo, que envolve estratégias para o bem comum, luta, respeito, e amor, por fim.

Viver é invejar e sofrer. Todos sofrem: o invejoso e o invejado. Há quem diga que os simpáticos do comunismo e do anarquismo são pessoas que, em suma, invejam os burgueses com sua boa vida. Pode até ser. Partindo dessa aceitável premissa, será interessante para o opressor o fim da inveja no mundo, pois assim o oprimido vai se conformar em sustentar com seu suor e seu sangue o luxo do opressor, sem reclamações de qualquer tipo.

Portanto, se comunistas não passam de invejosos, eu diria que a inveja pode ser o melhor combustível para o motor da luta por igualdade social. Talvez tenha sido assim, desde o século XIX, com os trabalhadores da Inglaterra, que estariam invejando a cama quentinha e as boas refeições do patrão; o pleno gozo do direito de ir e vir deste, algo sempre negado ao proletariado.

De toda forma, seria interessante se a classe trabalhadora e a pequena classe média guardassem sua inveja – já que é impossível se livrar de tal sentimento – para os ricos. Que se inveje a boa vida da burguesia, e não o outro, pobre como você, que luta pra sobreviver, com talento, força e arte. Que se inveje o dinheiro fácil, roubado, herdado e esbanjado pelos ricos, não o pobre que comprou um carrinho melhor, que conseguiu um emprego melhor, uma namorada bonita, ou ainda que ostente talentos intelectuais – coisa de rico ou de pobre “metido a besta”.

Não invejar as facilidades e conforto dos ricos seria uma insanidade, se não a suprema hipocrisia. Por outro lado, a inveja que se tem de outro irmão, pobre como você, é destrutiva para você mesmo. Queira bem a seu irmão, a seu igual. Guarde sua inveja e ódio para o opressor, já que a existência de tais sentimentos é praticamente inevitável. Inveje o opressor: esteja pronto pra admitir isso, está liberado. Mas o inveje pelo que ele possui, jamais pelo que ele é e pelo que ele faz, oprimindo, abusando, posando de bom, pois ele pode ser mais miserável do que se pensa.

Adorar o opressor é homenagear quem te rouba, de você e de seus irmãos, o valor sagrado de sua força de trabalho e produção. É natural invejar bens, pois conforto na vida é importante. Mas não queira aplicar sobre o seu irmão o método sempre usado contra você próprio pelo opressor, pois isso vai te igualar a ele.

Procure amar seu trabalho. E tente trocar de trabalho, se for o caso. Seja grato à vida por ter forças e inteligência para trabalhar. Mas não considere a exploração algo natural, pois isso é o que Eles querem. Ainda que Eles possam ser dignos de pena e pouco dignos de inveja moral, sua vida confortável é objeto de nossa inveja, sim. Sempre será. Queremos uma vida mais fácil. Contudo, sem oprimir, enganar ou explorar o próximo. Sejamos diferentes. Admitamos nossas diferenças, aceitemo-nas, desejemo-nas. Isso quando por trás do muro das diferenças não houver uma fábrica de mentira e exploração.

Acho, por fim, que sentir inveja de gente pobre e trabalhadora como a gente é uma das mais miseráveis e obscuras características pra se encontrar numa pessoa. Muito embora possa haver aí – até nisso – um bom sinal: de que o dinheiro não é a coisa mais importante.

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Sobre o Autor

Luciano Fortunato

Luciano Fortunato

Escritor.
"o menino é o pai do homem" (willian wordsworth);
"criar é dar forma ao próprio destino" (albert camus);
"...atire a primeira pedra" (yeshua)...

Ateu Cristão
Não creio em divindades de quaisquer religiões. Mas respeito profundamente quem crê no mundo místico, onde, aliás, vejo muita beleza. E como tenho como meu modelo pessoal o de Cristo, que é o exemplo total de tolerância, compreensão, conciliação, fraternidade, coragem e amor, sou levado, sem qualquer incômodo, a respeitar todas as religiões. Fé e ciência: ambos merecem respeito. Sou um homem curioso, preocupado em entender o ser humano e o mundo, e também a sentir a vida de forma grata... apesar de minhas posições políticas.
Preferência política: Simpatia pela esquerda

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