Crônicas

A liberdade incompreendida de Andreas Von Richthofen

Fotos: reprodução da Internet
Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Andreas tem uma irmã que ajudou no assassinato dos pais e por isso ela cumpre pena no Estado de São Paulo.

Andreas tem quase 30 anos e é herdeiro de uma fortuna estimada em 10 milhões de reais.

Andreas era um menino quando a morte violenta dos pais aconteceu.

Andreas chorou junto à irmã no funeral do próprio pai e da própria mãe.

Andreas nunca gostou de falar sobre o assunto, e se irrita quando alguém quer ouvir dele uma opinião sincera sobre a tragédia.

A vida do Andreas não foi fácil. Ele seguiu sozinho o seu destino. Ter um tio que seja inventariante não quer dizer que o jovem Andreas tenha tido um amigo; um alguém para confiar os seus segredos ou dividir os desejos e as frustações enquanto crescia e tentava usar a sua inteligência enfiando-se nas aulas de farmácia e química.

Andreas cresceu acompanhando as especulações em torno da sua irmã presa. Através de programas de tv, desses que carregam a arrogância de quem está prestando um serviço à sociedade, ouvia, paralisado, inúmeras histórias horripilantes sobre a vida dos Von Richthofen.

Nas suas tardes diante da tv, enquanto um “especialista” da área responde hipóteses sobre o comportamento da família, Andreas se transporta ao longínquo ano de 1917, quando o seu antepassado Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen cruzou os céus pilotando o seu Albatros D.II e, conseguiu, após ser atingindo no tanque de combustível, pousar o avião sem que ele pegasse fogo. Andreas vislumbrou-se sendo o próprio Barão Vermelho do nosso tempo para poder voar bem longe de toda a loucura que estaria por vir.

Pela tevê, ficou sabendo do romance da irmã com outra presa. Depois, naquele mesmo ano, ouviu dizer que a irmã recebeu salvo-conduto por bom comportamento e sairia no dia das mães.

– Ora! – pensou Andreas – Justamente no dia das mães!

Andreas não tem a quem pedir ajuda. Um colo de mãe, certamente, é tudo que aquele garoto de nome imponente e atordoado pela morte dos pais merece receber.

Quando o adulto Andreas escolheu os amigos invisíveis das ruas para uma companhia de fim de tarde, ele, talvez, não pensou que fosse dar de cara com as ações da polícia na árdua incumbência de acabar com a Cracolândia do centro de São Paulo. Ele fugiu porque não queria ser reconhecido. Sozinho, anônimo, ele tem um pouco de paz.

Mas, a justiça também tem um lado macabro: o sorriso da irmã, que em breve receberá mais um salvo-conduto, contrapõe-se ao olhar melancólico e despedaçado do solitário Andreas.

Nem de longe o Andreas tem o sangue frio da irmã. Ele não foi capaz de traçar o seu destino e armar estratégias para aproveitar a vida com o dinheiro deixado pelos pais.

Não, Andreas não é mau.

Ainda não sabemos se Andreas é viciado em crack ou em outras drogas. Mas, já sabemos que ele não é bandido. Sabemos disso tudo, porém, não somos capazes de lhe oferecer ajuda. A sociedade parece querer que Andreas cometa algum erro para julgá-lo e depois acrescentar mais um tanto de culpa à sua já violentada vida.

Comentários

Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br