Crônicas

A-manhã

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Amanhã é 21, dia do solstício de verão. Amanhã ainda é dezembro. Amanhã, o planeta terá mais 86.400 segundos de vida. Amanhã…

Luzes piscam sob lonas tensionadas; quase que estas são reveladas uma a uma por aquelas no escuro e nada silencioso manto e fachada da Noite; o rumor das obras ainda em andamento rumo ao amanhã mais esperado nestes últimos dois anos, as Olimpíadas,mimetiza-se em meio à festa na grande e nova praça. A lua está deslumbrante sobre o Mar, iluminado com a sua cobertura suspensa em onda e percebe-se pessoas na laje e batuque vindo de um palco. São vinte para uma, uma hora menos vinte, meia-noite e quarenta, os primeiros quarentas minutos de vinte de dezembro de dois mil e quinze. A fila para entender o Amanhã, apreciar o museu e fazer selfies da inauguração da nova escultura penetrável – em meio à madrugada na distinta, elegante e super transada Praça Mauá – é grande, e não foi preciso o verão chegar para que o calor se intensificasse. É pulsante. É vida. Foi e é pensamento. É constante transformação. #CidadeOlímpica. Somos o universo.

A-manhã

O medo de ser assaltada no percurso entre o metro da Carioca e uma Rio Branco vazia fez com que eu trouxesse apenas o celular, de uma qualidade aquém do que é merecido registrar nesta límpida noite. O centro do Rio de Janeiro pulsa. Ainda é cedo, há movimento, foodtrucks e outras barracas. Um globo brilha por trás de um olho branco, há uma chuva de luzes na frente de um novo volume branco e há reflexos de luz em meus olhos. Existe movimento para todos os 5 sentidos. Entre transeuntes, turistas e locais há crianças jogando bola, há pessoas de bike rio, rodinhas coloridas brilham em pés que rodopiam pelo novo espaço, revestido em mármore. É o retrato do Amanhã que chegou a estes lados da cidade, tão escurecida e largada em um passado muito próximo. A brisa começa a ser agradável e veem-se aviões (ou suas luzinhas) planando no céu acima da Baía tranquila. Somos pensamento. Somos movimento e a Terra. Volto para casa para buscar minha câmera fotográfica.

Às quatro da manhã, o cenário é heterogêneo, histórico e incrivelmente belo. Imperdível, inesquecível, sensorial e eloquente. A arquitetura é um primor de técnica, beleza e função: é delicada em uma alma escultórica, é verdade através de suas placas solares em uma casca que se move a favor do sol. É moldura para a Cidade Maravilhosa. É receptiva. Suas curvas são um charme e a tecnologia nos faz cair o queixo, em seus 5 ambientes guiados pela Íris, um cartão magnético que registra seus passos pela mostra e lhe informa sobre todo o conteúdo apresentado. “é um museu de conteúdos imateriais, de acervo infinito, de perguntas e possibilidades, do mundo contemporâneo, do diálogo entre real e virtual, do caminho entre o hoje e o amanhã.” Gabriel Cariello é jornalista do O Globo e também meu irmão de coração; quando éramos criança, estudávamos juntos sobre o universo, nos preparávamos para as Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, e em uma das vezes, tive a 4ª classificação, junto à outros brasileiros, e guardo uma medalha de bronze e quatro certificados de participação na Olimpíada. Passar uma madrugada no museu que nos permite viajar pelo espaço é um presente muito especial.

Ao sair do Museu do Amanhã na manhã de um novo e particular Amanhã confrontamos a linha tênue entre o presente e o passado: o primeiro arranha-céu da América Latina, conhecido como “A Noite” mas de nome Joseph Gire, construído na década de 1920 nos observa com um olhar maduro de um amanhecer de domingo; o pós moderno RB1, da década de 1990, reflete os primeiros raios de sol do dia. São nove para às sete, sete horas menos nove, seis e cinquenta e um da manhã, 24.660 segundos deste domingo vinte de dezembro de dois mil e quinze. O sol já está quente, o show continua na praça… revoadas de pássaros matinais dançam acima das esparsas nuvens, pessoas ainda circulam por aqui, mesmo aquelas cansadas pelo viradão cultural, como eu. É domingo e me transformei nesta madrugada. Somos pensamentos e conexões. Somos vida. Somos Terra. Somos destruidores mas também transformadores. Somos placas solares, obras de arte cinética, fachada em movimento, somos Praça Mauá. Somos o Rio de Janeiro. Celebremos!

Vida longa a nova Praça Mauá, com seus edifícios que reverenciam A Noite, O Mar e O Amanhã.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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