Crônicas

A minha cidade das cores

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las pela primeira vez, ainda garoto, empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite nas ruas, eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul igual ao céu em dia claro e São Paulo de um cinza faiscante.

Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, e, dentro deles, os nomes das cidades, as quais passariam a ser, a partir dali, classificadas pelas cores. De modo que, Curitiba chamar-se-ia Curitiba-Cor-de-Gelo, Salvador-Alaranjado, João Pessoa-Azul-Anil e Espírito Santo-Cor-de-Mel. Abaixo de cada nome vinha um número, e dependendo do tempo que eu dispunha, seria desenhado ou estilizado. Numa coluna ao lado, repetia os números indicando a posição das cidades no “meu mapa”. Isso serviria para facilitar na hora que quisesse comprovar a autenticidade de minha criação, normalmente para a minha família ou um amigo de pelada.

Claro que parecia uma idéia estúpida para a maioria.

– Tá maluco! Onde já se viu dizer que cidade tem cor, menino. Tem muito é ladrão e gente doida, isso sim – dizia minha mãe, cada vez que eu insistia no assunto.

Às vezes, ouvia dos mais velhos que São Paulo era a cidade da garoa, e isso me deixava intrigado, tentado imaginar a cor turva de um dia chuvoso, num lugar, que para mim, só podia ter uma cor: cinza faiscante.

Tinha meu amigo Zeca que acreditava nessas descobertas, mas ele não contava, já que acreditava em tudo que eu falasse.

– Qual é mesmo a cor de Brasília? – perguntava ele em tom provocativo.

– Brasília-Branco-Neve, Zeca – dizia-lhe mostrando o número correspondente à cidade nas folhas dobradas que levava no bolso.

Um dia ele fez uma pergunta que mudaria para sempre aquele meu raciocínio:

– E a nossa cidade, que cor ela tem?

Fiquei parado, pensando e tentando imaginar, mas simplesmente não havia resposta. Durante semanas fiquei buscando a cor certa para minha cidade. Fechava os olhos e nenhuma coloração vinha à mente. Passei a evitar o Zeca, com medo que ele descobrisse que jamais havia pensado nisso antes. “Como não saber a cor da nossa cidade, se você sabe as cores de todas as cidades, até de Nova Iorque?”, provavelmente ele diria.

Uma vez ele me disse que cansou de esperar uma resposta minha, e tentou, por conta própria, descobrir qual era a cor da cidade onde morávamos. Ele contou que sua cabeça doeu de tanto ficar tentando traduzir numa única cor uma cidade inteira.

Alguns anos se passaram, muita coisa mudou e eu continuava pensando nas cidades de cores, só que sem o entusiasmo de antes. Perdi o cantato com minhas raízes, e Zeca passou a ser apenas uma recordação. Conheci algumas das cidades anotadas no meu caderno de desenhos, e elas se apresentavam exatamente como eu as desenhara: o Rio de Janeiro tinha mesmo a cor azul do mar em dia ensolarado.

Esta manhã acordei pensando no Zeca. Queria dizer-lhe o quanto estive envolvido em descobrir a cor da nossa cidade. Mas, infelizmente, ele já não está entre nós. Passados vinte e cinco anos daquele episódio, gostaria de encontrá-lo novamente, e dizer-lhe que nunca parei de sonhar, e que existe uma cor para a nossa cidade: sua cor tem o brilho dos seus olhos.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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