A morte pode ser mais leve para quem diz eu te amo

by Francci Lunguinho | 24/09/2017 18:33

Para Rodrigo Castro.

Sexta-feira, às seis da manhã, descubro por mensagem que um infarto fulminante levou a vida do pai de um amigo.

Uma semana antes, eu e o amigo estivemos juntos em minha casa durante quase todo fim de semana. Houve tempo, dentre outras coisas, para falar sobre as histórias dos nossos pais.

Acho que era o meu momento de ouvir. Fiquei um longo período do dia prestando atenção em cada palavra sua. Dava para ouvir até os seus batimentos cardíacos quando alguma passagem da infância me era descrita. Ele me disse que jamais tomou uma surra do pai, mas, que ele era demasiadamente disciplinado quando se tratava dos seus estudos. Exigia que fosse obediente com os mais velhos e que fosse educado na rua. Cada palavra dita vinha-me com a força de uma saudade prestes a explodir e descer sobre o peito.

Ainda não sei se a nossa conversa foi um prelúdio. Mas, algo naquele bate-papo estava me tomando por inteiro. Enquanto ouvia as suas histórias sobre a sua relação com o pai, tentava rememorar as minhas também. Ele, o filho, tinha projetos para dividir com o pai que estava próximo do aniversário de 64 anos de idade: pensava em montar uma cafeteria e trabalharem juntos. Disse-me que era preciso de mais tempo para conversarem mais; se amarem mais. Assistir aos jogos do Vasco ou um ou outro fim de semana juntos já não estava sendo o suficiente para os dois.

Porém, na fatídica sexta, ao saber da morte, imediatamente lembrei de uma frase que ele me confessou quase que sentenciando o futuro, embora, como todos sabemos, o futuro é um lugar invariavelmente inabitável:

– Acho que tenho só mais uns 20 ou 25 anos para conviver com o meu pai. A cafeteria vai deixar a gente mais tempo juntos.

Nesse instante, a lembrança forte do meu pai, no alto dos seus 90 anos de idade, me invadiu deliberadamente. Foi um soco no estômago:

– Será que nos amamos o bastante?

No velório, o meu amigo estava leve, sereno. Já não fazia planos futuros, mas guardava dentro de si todos os ensinamentos que ao longo da vida aprendera com o pai. Tantas vezes ouviu que era preciso ser sempre forte, em toda e qualquer situação, e até diante da morte.

Voltei de lá com uma certeza: que o meu futuro ao lado do meu pai é no exato momento do alô que dou, da visita que faço ou das palavras que cristalinamente saem de mim para dizer:

– Pai, eu te amo.

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