Crônicas

A noite, o Rio, Mariliz Pereira Jorge

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Os barulhos, à noite, são alertas. Um simples estalar de cama já aciona um dispositivo em quem dorme e, prontamente, já desperta. O silêncio noturno é ideal para quem trabalha criatividade, para quem precisa de um tête-à-tête consigo mesmo e para as faíscas de amor entre um par.

À noite, a cidade lembra uma pintura; luzes de postes e alguns cômodos são jóias cintilantes para um apreciador atento. Um caminhante despreocupado pode descobrir, por exemplo, que pássaros extravagantes gostam de desfilar suas longas pernas nos paralelepípedos de um centro histórico. Canções podem embalar solidões, transformando-as em momentos lúdicos. A noite traz a beleza de ser humano, ser você mesmo e ser um hiato entre o que vive e o que não.
A noite faz bem para o coração, tal qual a brisa do mar faz bem à alma.

No Brasil a noite burla burocracias e o aval dos cidadãos; aprova-se no Congresso questões contrárias ao bom senso. Fazendo um recorte no Rio de Janeiro, para comemorar tais feitos e também uma festa no morro, chegada de droga ou retaliações entre facções, o céu noturno parece repleto de vagalumes afoitos, indo de um lado a outro em instantes poucos. Fosse um filme mudo e não causasse mortes e ferimentos, vá lá; mas o cenário é troca de tiros, balas perdidas, crianças com a idade interrompida e fetos -sim, fetos, seres que nem saíram da barriga, o lugar até então pensado como o mais seguro de todos – paraplégicos.

O descrito acima não se restringe a calmaria do período noturno, obviamente. Um dado interessante: em Israel, um país em meio à guerra, o número de homicídios é uma média de 60 pessoas/ano; na cidade do Rio de Janeiro, só em 2017, já se tem registrados 86 Policiais Militares mortos. É ou não é para ficar desesperado?

Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha de São Paulo, em 30/06/2016, publicou um texto intrigante: “A vida é muito curta para morar no Rio de Janeiro”. Começa dizendo que era considerada a paulista mais carioca do seu meio de amigos, quando ainda não residia na cidade maravilhosa e que, quando enfim se muda, por motivos de trabalho, sua visão é distorcida pela realidade que vivencia. Cita a ONG “Rio como vamos”, uma iniciativa bacana que, através da cidadania, visa promover uma vida sustentável, aumentando a qualidade de vida da cidade. Em um seu levantamento, segundo a colunista, ano passado, 56% da população queria deixar a cidade, muito devido a sua violência. Este ano, com certeza, o número é mais alarmante. Mas daí a sentenciar que “O Rio é só uma cidade decadente que vive de um glamour passado, num presente melancólico“, pera lá. Nossas águas estão poluídas, sim, mas dizer que “O negócio é mergulhar no cocô para se refrescar, tomar uma cervejinha e tirar foto do por do sol” é uma sentença de alguém que não tem alma de um morador. Eu não sei quanto tempo você ficou por aqui e viveu realmente a cidade, Mariliz, não faço ideia dos traumas que a fizeram tão seca, mas como colega de profissão e também de uma que acabou por adotar a cidade do Rio para si, sou contra muito do que você escreveu. O Rio não deixa de ser maravilhoso por seus problemas; são questões políticas, cada vez mais econômicas e muitas vezes históricas, de falta de educação de uma população que, historicamente, começou a cidade jogando excrementos pelas janelas, mas indústrias poluíram a Lagoa Rodrigo de Freitas muito antes de pessoas comuns defecarem em meio às águas que você nadou. São Paulo, que é sua conhecida, também tem problemas de violência, talvez não no mesmo grau. A administração do estado como um todo e da capital com mais afinco atrelada a uma educação da população que se reflete em serviços muito melhor desempenhados pelos paulistanos do que pelos cariocas ainda me fazem, quando volto de São Paulo ao Rio de Janeiro, ficar triste. Mas andar pela orla da Zona Sul de bicicleta, visitar os tantos museus do centro do Rio – de graça -, caminhar no aterro em um fim de semana sem carros, descobrir novos grafites pela cidade – que não estão em um beco do Batman e nem foram apagados e substituídos por paredões verdes (me desculpe, mas isso também é dar uma maquiada na realidade), conhecer a cultura do baile charme debaixo de um viaduto em Madureira ou ainda subir uma comunidade – o termo reflete o processo de transformação da realidade das favelas e coloca em destaque a população desses assentamentos, não a realidade esteriotipada que ficou conhecida mundo afora – e poder contemplar vistas de tirar o fôlego, isso tudo fazem sim o Rio maravilhoso. Concordo que é uma cidade para turistas, infelizmente é difícil para quem mora, na rotina casa-trabalho, poder aproveitar todas essas belezas. Mas não é um cenário perfeito – temos também, é só fazer uma visitinha ao PROJAC. Trata-se de uma cidade grande e problemas inerentes a este adjetivo. “Férias é somente o que uma pessoa com juízo faria aqui”. Não foi muito elegante da sua parte chamar toda uma população (estima-se 6.500.000 pessoas) de desajuizada. “E antes que algum ofendido venha me mandar embora, só tenho uma coisa a dizer: É o que eu mais quero. Eu e os 56% dos moradores do Rio”. Não acho que um carioca ofendido lhe mandaria embora. O mais provável era lhe chamar para tomar uma cerveja e discutir tudo isso em uma mesa de bar. E muito provavelmente, mesmo que você não mudasse de opinião, se em sua mesa se sentassem cariocas de diferentes classes sociais, você fosse mais sensível e gentil em seu texto. Eu, moradora do Rio de Janeiro, também tenho vontade de deixar o Rio; mas não é só por ser o Rio. Tenho vontade de deixar o país. Mas aí entraríamos em uma crônica sobre economia e recessão nacional.

Por enquanto, prefiro me ater às noites ainda inspiradoras do Rio de Janeiro, em que trechos da canção “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça” ainda sejam uma constante para mim, em relação à Lua e a vida.
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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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