Crônicas

A Pedra do Destino

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Por Humberto de Almeida*

(Para Ana Beatriz e Heráclito de Almeida, que me contaram muitas histórias nesta Vida Severina)

É de manhã e o Homem está para sair de casa. Antes de abrir a porta, a campainha toca. O Homem atende. Na soleira da porta estão dois vultos: um, cheio de luz na cabeça, crachá na lapela; e outro, encapuzado, rosto na sombra assim  como (lembra o Homem) Peter O’toole no cartaz de Lawrence da Arábia. O Homem arqueia as sobrancelhas.

– Bom dia, fala o dos raios fulgurantes sobre a cabeleira. Sou um enviado de Deus e estou aqui para inaugurar uma nova Etapa na vida humana. Vim apresentar ao senhor, símbolo escolhido da Humanidade, o seu Destino. (Aponta para o do capuz, que pigarreia tímido e esfrega o pé esquerdo no chão, meio encabulado.).

– Destino?!  Mas eu não preciso disso, já tenho muita sarna pra me coçar! Basta!  Com licença seu viado de…

– Enviado, senhor.  Talvez o senhor não tenha compreendido a importância dos acontecimentos de hoje. (É interrompido com uma revoada de anjinhos, que ruflam as asas tão alto  que o Homem se assusta…) Não tenha medo. O senhor foi honrado para a introdução deste programa de incentivos ao Objetivo Maior. O Destino do Homem. O senhor vai testar para nós. Não é uma felicidade?

– Que felicidade é essa?! Estou atrasado pro trabalho e tu me vens com essa conversa? Não vou ser cobaia de nenhum passatempo do Velho lá de cima (aponta com o indicador para o alto.) Vão parar com isso eu ou chamo o cachorro!

– Bom, se o senhor  quer partir para a ignorância… Seu cachorro morreu esta noite… Entra o Destino dele, o senhor sabe. (O Homem olha acusadoramente o encapuzado. Este desvia o olhar e respira meio constrangido. Tem a coleira do cachorro no pulso, repara o Homem.) Vamos encurtar o assunto: todas as manhãs o Destino aqui (outro pigarro) vai trazer uma pedra e depositá-la na sua porta. Aí o senhor vai transportá-la ladeira acima e depois carregá-la consigo por aí. Haverá um descanso não remunerado com existência e o senhor poderá ir dormir. O que é que o senhor acha?

– Que vocês estão é loucos! Vocês acham que eu sou palhaço?! Saiam fora daqui ou eu chamo a polícia!

– A polícia não acredita em gente como senhor. É o seu Destino. Por favor, vamos facilitar o serviço para Deus. Ele está impaciente pra começar esta experiência. Agora precisamos tomar uma providencias. O senhor terá uns privilégios que os outros homens não terão. Por exemplo, que tipo de pedra o senhor gostaria de encontrar toda santa manhã?

Os raios de luz do enviado incomodam o Homem e ele põe a mão na testa pra ver melhor. Aí, repara num caminhão-guincho e numa niveladora que estão escavando o terreno em frente  a sua casa, fazendo uma lombada. E aquelas trombetas que não param de tocar no alto?! Com a saída bloqueada, o Homem já está resignado com o atraso.

– Olha, aceito uma combinação. Mas nos meus termos: sem ladeira, um empregado para transportar a pedra e entrada grátis para as boates que têm “estripitises”,  tá?

– O Sr. Está brincando com Deus. Deus não negocia. Estamos sendo gentis com o senhor, o abençoado escolhido. A pedra pode ser um arenito (gasta mais depressa), de basalto (econômica), mármore (um luxo!),  etc. A escolha é livre. Só tem que assinar aqui no bloco do pedido.   Ah, pensamos também no local: em que ângulo senhor gostaria de subir e descer?  15º? 20º? Deixe-me ver as suas mãos. (O Homem deixa as mãos abertas, meio medroso.) O enviado examina a calejada planta palmar do Homem e só diz “hum”…

Agora já há uma ladeira pronta e do Céu desce, num guindaste invisível, uma espécie de meteoro em câmara lenta, que pousa bem aos pés do homem. O Enviado fala para  Destino:

– É a tua vez. Põe a pedra em posição. Mas antes deixas eu preparar a fotografia. (O homem vê que o Destino põe umas luvas de pelica para o ato. Seria um Destino bicha?!).

Mas o Homem ainda reclama:

– Peraí! E as outras pedras que estão todo o dia aqui na minha porta? Quem vai quebrar meu galho com as contas, com as despesas, as dívidas, etc.? Será que Deus não sabe disso?!

O Enviado de Deus e o Destino se entreolham. (O Destino está suando em bicas com aquele imenso bloco de granito nas mãos.).

– Um momento, diz o Enviado. Não temos nada a ver com a sua situação atual. Daqui pra frente é o que importa. A espécie humana pode sr. salva com a sua atuação. Já pensou que glória?! (Soa uma aleluiazinha reforçando a cantada.).

– Não quero glória, meu caro viado…

– Enviado.

– É, enviado. Não quero nada disso. Acontece que passo o dia inteiro trabalhando duro pra sobreviver e garantir o sustento da mulher e os seis filhos, e de manhã cedo terei  de sair com isso aí (aponta para a pedra, cujo peso está fazendo o Destino fraquejar sobe ela), rolando pra cima e pra baixo feito um burro de carga. Não, nessa não me pegam. Já chega o salário mínimo, o governo, a CPMF, o Renam Calheiros,  aposentadoria só com Certidão de Óbito, O Faustão, Gugu, Galvão Bueno, as duplas sertanejas e bandas de forró, Preta Gil e as margarinas hidrogenadas!

– Mas, e a idéia de Deus?!   Como fica a salvação de seis bilhões de almas?!

– Não pergunte a mim! (Há uma balburdia de máquinas, anjinhos pousados cantando na antena da TV do casebre, gemidos do Destino, curvado e arquejante debaixo da camisola, e as trombetas desafinando, a família do Homem dando palpite em tudo, os vizinhos espiando aquelas figuras esquisitas.). Eu sou apenas um pedreiro (continua gritando o Homem.) e não entendo as filosofias celestes. E bastam as minhas pedras nos rins!

Aí, os dois, vendo a bruta mancada, se mandaram, debaixo da vaia do pessoal da Vila dos Motoristas (essa mesma onde nasci.).

Mas a pedra ficou…

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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