Crônicas

A pobreza e a nobreza

Sérgio Sayeg
Escrito por Sérgio Sayeg

Carrego, dizes, sangue nobre na veia, sou da elite branca. Graças a alguns tostões honestamente conquistados, estou eternamente condenado a não morrer de fome. Triste sina.

Nem por isso ostento galardões burgueses: levo vida modesta de assalariado, não trajo roupas de grife, dispenso comodidades e só uso transporte público ao lado dos mais pobres (e dos menos pobres) do que eu com toda naturalidade. Se alguma nobreza cultivo é a de princípios.

Tu, ao contrário, nobre companheiro, vanglorias-te de ter a pobreza do teu lado. Não apenas a dos pobres de recursos, mas a dos pobres de espírito, a dos pobres de aspiração, a dos pobres de convicções. Esses são os que hoje te seguem (carentes que são também de questionamentos).

Para tê-los a teu lado, não vacilas em torrar irrefreavelmente dinheiro público distribuindo demagogicamente bondades em subsídios, assistencialismos, auxílios, benefícios, bolsas ainda que seja necessário quebrar as finanças do Estado (tanto de ricos quanto de pobres). E assim mobilizar legiões de eternos miseráveis, fiéis escudeiros bolivarianos que blindam teus líderes de críticas e ações judiciais.

É isso que te torna desgraçadamente POBRE, na mais completa acepção do termo. E que te permite, mesmo rodeado de “pobres coitados”, levar uma vida nababesca, distanciada de gente efetivamente pobre, maltrapilha. Um “pobre” milionário. O pior dos pobres, o pobre de fachada, aquele que, a despeito de seu discurso igualitário, só frequenta shoppings de luxo, hotéis cinco estrelas, restaurantes caros e hospitais de referência utilizados pelos mesmos magnatas que encenas hostilizar, proferindo bravatas coléricas, num burlesco jogo de cena. Que pobreza moral! Nessa patética jornada, acompanham-te congressistas, pastores, estrelas do esporte, duplas sertanejas e apresentadores de TV. Todos que, sendo, em essência, indigentes, amealham fortunas, venerados e elevados ao ápice por muitos outros pobres.

Movimentas míseros milhões de dólares. E (com eles) faturas modestos milhões de votos. Jamais poderia eu, com meus pobres princípios e minha singela sinceridade, concorrer contigo numa eleição, turbinado que és pela aparatosa falsidade, pela faustosa mentira e pelo ostentoso apelo fácil que arrebata multidões de pobres de todas as classes. Pobre de mim…

E penso com meus pobres botões: de que vale ganhar o poder nas urnas se esse sistema pobre (e podre) aí está para beneficiar apenas os pobres de caráter.

Fica com tua mísera ganância de poder. Eu fico com o meu rico anseio de liberdade. Usarei da minha liberdade para te criticar e usarás do teu poder para me calar. Talvez um dia consigas fazê-lo, apoiado pelo exército radical armado que arregimentas, à maneira de Hitler, Stalin e Robespierre.

Podes ficar com teus doutrinadores raivosos, teus militantes servis e com os milhões de pobres diabos por eles enganados e usufruas de tua fixação pelo poder a que te apegas, como um pobre a um prato de comida.

Eu ficarei com os sábios, os críticos, os ponderados, os indignados, os justos, os incorruptíveis, os estudiosos, os sensíveis, os poetas, os idealistas, os humanistas, os ambientalistas, aqueles que (sendo pobres ou ricos) não se deixam enganar por falsos pobres.

Não falo de endinheirados, mas de diferenciados. Aqueles cuja riqueza de ideias, criações e atitudes fizeram a vida menos pobre para todos. São poucos, não elegeriam sequer um vereador, mas sem precisar titular nenhum político, estão sempre tornando mais rico o destino de burgueses e plebeus.

Tu queres dominar as massas, eu pretendo cativar a fina flor. Tu, deslumbrado, ostentas um rebanho de bois; eu, humilde, me galhardeio com as ovelhas negras. Comandas os obedientes, os unissonantes, os monocórdios. Eu avoco os inconformados, os libertários, os criativos. Esbanjas a quantidade. Eu louvo a qualidade.

Dinheiro não é a questão. Pois nada é mais parecido com uma horda de pobres imbecis do que uma corja de ricos idiotas. Esses votam nos xucros de direita, enquanto aqueles elegem os broncos de esquerda. E por ambos os lados somos democraticamente espoliados. Isso faz a verdadeira penúria desse país miserável, onde possuídos e despossuídos são igualmente ‘pobres’.

Podes bradar que sou elitista e eu te responderei sem falsos pudores: POBRE!!!

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Sobre o Autor

Sérgio Sayeg

Sérgio Sayeg

Brasileiro, 64, economista formado pela USP, ex-professor universitário, ex-proprietário de loja de discos raros e escritor. Escreveu o livro de Crônicas O QUE DE MIM SOU EU pela editora Scortecci em 2012. Páginas no facebook: O QUE DE MIM SOU EU em que publica crônicas; CONTRO-VERSOS com mini poesias provocativas; OBRAS PRIMAS DA MÚSICA BRASILEIRA NÃO DEVIDAMENTE RECONHECIDAS com matérias sobre álbuns de MPB que não tiveram a merecida repercussão na mídia.

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