Crônicas

A Profissão dos Outros

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Tem gosto para tudo.

Tem gente que quer ser juiz de futebol, aquele cuja mãe vive na boca do povo. Do meu ponto de vista a única vantagem é assistir aos jogos sem pagar ingresso, mas não sei se compensa o esforço de correr atrás da bola o tempo todo.

Eu não entendo as escolhas alheias, assim como os outros não devem entender as minhas. Ainda bem que ninguém está interessado em explicações, porque é difícil explicar o inexplicável.

Jamais seria médica, por exemplo. Imaginem se todo mundo pensasse assim! Em compensação, sou apaixonada por matemática e recebo alguns olhares estranhos por causa disso. As razões para gostar de uma coisa e rejeitar a outra até eu desconheço.

Começando pelos médicos, todo dia agradeço aos meus colegas de humanidade as escolhas profissionais que eles fizeram na vida e que me livram de um bocado de aborrecimento. Constroem minhas casas, tecem minhas roupas, produzem a comida que vai à minha mesa. Podem deixar os cálculos para mim, a gente paga como pode o serviço alheio. Também procuro divertir uma ou outra pessoa escrevendo crônicas aos domingos, mas essa parte é brinde, não conta.

Existe um monte de coisas que eu poderia fazer sem esforço, e até com alegria, mas existe um monte ainda maior de coisas que me deixariam desesperada. Mesmo entre colegas de profissão encontram-se enormes discrepâncias. Conheci um matemático que, por razões monetárias, resolveu cursar Direito. Soube disso quando, depois de anos sem vê-lo, nos encontramos na rua por acaso. Tínhamos estudado juntos numa certa época da vida e ele tentou convencer-me de que eu seria uma ótima advogada.

Nem pensar: minha cabeça não combina com aquele emaranhado de incertezas e interpretações. Sou agradecida aos advogados que me poupam desse serviço.

Morreria de tédio se tivesse que ser ascensorista. Há quem não se importe e até ache divertido aquele entra e sai de pessoas e assuntos variados. Supondo que alguma dessas conversas de elevador seja interessante, a chance do ascensorista não saber o final é perto de cem por cento. Em alguns casos, nem isso. Um dos supermercados que eu frequento possui um elevador com apenas duas paradas: o térreo e a garagem do subsolo. A coitada (‘coitada’ é avaliação subjetiva) da moça que fica lá durante horas dificilmente ouve alguma coisa diferente de “por favor” e “obrigado”. Sou agradecida a todos os ascensoristas.

Ficaria apavorada se tivesse que ser guarda de trânsito. Não sei se é o trauma dos engarrafamentos, mas ficar numa esquina apitando contra aquele monte de carros desgovernados me enlouqueceria. Sou agradecida aos guardas de trânsito, mas desconfio muito da qualidade dos serviços que eles nos prestam aqui no Rio.

Chegaria ao desespero se tivesse que atender o público em algum guichê de burocracia. Felizmente há gente que nasceu para isso. Ou infelizmente, porque nesse caso meus sentimentos se dividem entre agradecer ou exterminar as criaturas.

Melhor parar por aqui…

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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