Crônicas

A quarta-feira de cinzas é fogo!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Os foliões mortos de folia, esses diferentes de outros mortos que conhecemos, estarão mais vivos que nunca no próximo carnaval. O que se queimou, porém, virou cinzas. Agora é passado. Então o que fazer agora? Nada mais simples: guardar a fantasia e ficar com essa que usamos durante todo o ano. Tomar um banho daqueles de horas debaixo de um bom chuveiro, esfregar bem o corpo para largar a purpurina, e esquecer os confetes e serpentinas que ficaram no salão.

O carnaval o verdadeiro, meus dois leitores, pelo menos por aqui, desde o primeiro dia se transforma em fotografia desbotada na parede da memória dos velhos carnavalescos. E esses, pela vez deles, assim como os seus carnavais, todos verdadeiros, não saem mais pelas ruas avisando que apesar de tudo “é preciso cantar”. Fazer o quê? Chamar a polícia? Também não. Hoje temos mais ladrões do que policiais. Perderíamos a parada. Perdemos sempre. Fica então a dúvida: chamar o ladrão seria a solução ou apenas uma rima?!

Mas apesar de tudo e de todos eles, os corruptos em especial, mais que nunca, mesmo com um Rei Momo necessitando urgentemente fazer uma redução de estomago e cheio que também anda dessa falsa alegria passageira que morre de vésperas; das “metralhadoras” e bandas que se vingam do verdadeiro carnaval, atirando balas de borracha na vã tentativa de matá-lo no cansaço das pernas folias, é preciso cantar para – se ainda for possível – acordar a cidade. E, se não for possível, nos manter acordados!

Não adianta. Não adianta mesmo. E se não adianta não tem como não se dizer que atrasa. Sigo o meu caminho contando os passos nada foliões. Estou de volta ao trabalho primeiro, a minha origem. E nesse meu caminhar não encontro um só folião por aí perdido a entoar velhas e gostosas marchinhas que faziam verdadeiro o nosso carnaval. Pausa. Acabou esse carnaval que nunca foi meu. Nosso? Também não.

Acabaram com o nosso carnaval e ninguém sabe mais cantar uma só das velhas e belas canções do tempo do meu velho Heráclito de Almeida, o folião clarinetista. O silêncio das línguas e corpos cansados é mais que sentido. Ele é visto nas imagens dos desmascarados papaguns, dos alas urso e dos tristes pierrôs e colombinas. Tudo virou uma só saudade que eles não sabem de onde vem e um gosto de cinzas na boca.

As ruas nessa da minha cidade estão vazias como os “homens do poeta” nos dias de sábado. É uma gente que não se vê; uma gente que não sorri e não se beija nem se abraça. Nenhuma dúvida: acabou o carnaval e a tristeza que estava em férias já pode voltar. Ah, também a esperança de viver outros carnavais. Tristes ou não. Afinal, vivemos no país em que o carnaval dura o ano todo. São mais de mil palhaços no salão. São mais de 200 milhões.

Cadê os confetes e as serpentinas?

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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