Crônicas

A solidão pelos olhos de uma criança

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

– Por que, me perguntou, a solidão é fria? Por que a solidão mora no escuro? Por que que ela é calada?

Tinha cinco anos e já fazia perguntas difíceis de serem respondidas até por um adulto. Não que seja uma questão científica ou algo que necessite de estudos e um vocabulário que divida os espertos dos leigos. São três pontos delicados, doces ao mesmo tempo que amargos, que nossas almas, bem lá no fundo, nem mesmo sabem responder. Respirei intensamente, olhei para os lados procurando um auxílio dos céus

– Porque, meu filho, veja bem… Quando a noite cai, fica escuro, não é? Então nos preparamos para dormir. Para dormirmos bem, temos que ficar bem quietinhos. E é o único momento que ficamos realmente sozinhos.

– Mas mamãe, eu ainda durmo com você!

– Sim, meu amor – eu estava tendo um papo adulto demais – mas quando você fecha os olhinhos, você sonha, não sonha?

– Sim, mamãe. às vezes não tenho sonhos bons. Mas aí acordo e você está comigo, me abraçando. E acende a luz. Então não estou sozinho e nem está escuro.

Era o fim da conversa. Não consegui pensar em nada que continuasse o diálogo. Como já estava na hora da janta, desconversei.

– É verdade.. Então não sei, meu filho. A mamãe vai pesquisar e depois te conta, está bem? Agora vamos jantar! Fiz sopinha de letrinhas!

Duas horas para terminar um prato de sopa. Cada colherada era uma tentativa de formar palavras. E me dizia todas as letras, e palavras que começavam com cada uma delas. Era um pequeno sabichão. Todas as crianças são pequenos gênios, pois vivem em um mundo de descobertas. Mas Francisco sempre me pega desprevenida. Considero-o “o máximo”.

Fui acordada às 5h40 da manhã por um pesadelo. Francisco dormia o sonho dos puros. Levantei, lavei o rosto, pus água para esquentar, sentei enquanto esperava o chá. Pensei nas perguntas do meu pequeno:

“Por que a solidão é fria? Por que a solidão mora no escuro? Por que que ela é calada?”

Ouvi barulhos na sala. Me dirigi para lá, acendi a luz e não vi nada. Voltei para a cozinha. Um vento forte fechara a folha externa da janela e, com o barulho, Francisco acordara chorando. Desliguei o fogão e fui correndo abraçá-lo.

– E só o vento, Chico. é só o vento, meu amor…

Amanhecia. Francisco não conseguiu mais dormir e fomos juntos para a cozinha tomar o café da manhã. Bebi meu chá e ele um copo de leite com chocolate em pó. Comemos pão com manteiga derretida e duas banana com aveia e mel, uma para cada. Era a sua fruta favorita. Fizemos brincadeiras, desenhamos e ele pediu para deitar um pouco, depois de bocejar. Quando estávamos na porta do quarto ouvimos um “toc-toc”. Vinha da sala.

– Mamãe, você ouviu? Vamos ver quem é!

Apesar de achar estranho o fato de alguém vir à nossa casa àquela hora, e com um pouco de receio, fomos os dois para o cômodo.

Silêncio e escuridão.

– Eu tinha deixado esta janela aberta! Deve ter sido o vento… – disse em voz alta, mais como um pensamento do que uma frase jogada ao léu.

– Eu abro, mamãe!

Com a ajuda de Chico, abrimos a janela. Qual não foi a minha surpresa quando ele sobe no sofá e me pergunta:

– Mããããããe!! O que é isso???

Olho para onde o dedinho me aponta, o espaço entre as duas folhas de janela, a de vidro e a de plástico. Naquele pequeno vão, do lado da folha que eu nunca abria, algum passarinho começara a construir um ninho. Eu estava sem reação.

– é um ninho, meu filho.

– Um o quê?

– Um ninho. A casa de um passarinho.

– Mamãe! O passarinho fez uma casa na nossa casa! Somos muito sortudos!

Contemplei aquele projeto de gente, meu rosto tentando entender o motivo de tanta felicidade. Ele pulava no sofá, com um sorriso enorme.

– Sortudos, meu filho? Por quê?

– Acho que agora entendi a solidão, mamãe!

– Ah, é? Então me explica, por favor.

Ele vem se sentar do meu lado, ajeita os cabelos, pega minha mão e começa:

– é muito simples, mamãezinha. O passarinho não tinha amigos. Precisava achar uns. Viu a nossa janela aberta e entrou. Ele deve ter ouvido as nossas vozes e achou o lugar muito bonito e cheiroso. Aí resolveu que ia morar com a gente. Ele construiu a casa dele e deve ter ido buscar as malas, quando a janela fechou. Ainda estava de noite. Estavaescuro. E ele não tinha ninguém. Devia estar muito triste e com frio, porque estava ventando. Imagina que tristeza chegar com as malas aqui e descobrir a janela fechada, mamãe! Temos que deixar a janela aberta! Ele não tem ninguém para conversar, por isso deve ser calado. A gente gosta de conversar e contar histórias, mamãe, podemos ser amigos do passarinho. Não quero que ele viva na solidão. Eu ia gostar de ter um amigo de penas! E ele ainda pode cantar para a gente!

As crianças não são somente geniozinhos. São seres mágicos. Todas são assim até que a gente as estraga, modelando conforme o padrão que achamos prudente. A solidão é mais doce do que amarga depois de resolvida por olhos tão cintilantes. Viver no frio, no escuro e calado é apenas questão de achar a janela certa. “Vamos deixar as janelas sempre abertas! Quem sabe não chegam outros passarinhos?”. Francisco nunca mais foi dormir sem antes conferir se as folhas de plástico estavam abertas. Naquele dia da descoberta do ninho, à tarde, um pequeno colibri pousou na nossa janela e terminou o ninho. Chico estava em êxtase, queria falar com o passarinho. Convenci-o de que o bichinho era tímido e deveríamos ter cautela. Uma semana depois fomos acordado pelo “piu-piu” de cinco filhotinhos. Isso foi há 5 anos. Até hoje encontramos pássaros em nossa janela. Francisco se encarrega de colocar sempre um potinho com água.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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