Crônicas

A Tocha

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

(Compozissão Infantiu, ou Saudade do Millôr)

A tocha olímpica está chegando ao Rio. Meu pai disse que não existe só uma tocha, existem muitas tochas olímpicas, e todas são chamadas de “a tocha”.

Se existem tantas tochas porque não deram nomes diferentes para elas? No meu colégio há duas Marias, uma é a Maria Clara e a outra é a Maria Fernanda. Aí ninguém confunde. Por que eles não fizeram isso com as tochas? Tudo com o mesmo nome vira a maior bagunça.

Ele contou que a tocha é um símbolo importante e que convidaram um monte de gente para carregar a tocha, que são muitas. Deve precisar muita gente porque muitas tochas devem pesar muito. Assim cada pessoa carrega só uma, e fica fácil.

Meu pai falou que foram umas empresas ricas que mandaram fabricar as tochas e que todas, menos uma delas, vão dar de presente as tochas para quem as carregar. Acho que essa é mais esperta do que as outras porque vai vender as tochas. As outras, se continuarem dando as coisas de graça, logo vão deixar de ser ricas. Deve ter sido da empresa esperta a ideia de fabricar muitas tochas, porque assim vende mais.

Ouvi dizer que cada tocha vai ser vendida por dois mil e quinhentos reais. Parece que isso é muito dinheiro, mas não sei quanto. Se eu tivesse uma fortuna dessas, comprava um monte de jogos, não ia gastar tudo com uma tocha boba.

Será que as pessoas precisam gastar esse dinheirão para comprar a tocha porque a casa delas não tem energia elétrica? Vai ver que é para acender o fogão. Tenho vontade de contar pra elas que fósforo é mais barato e ocupa menos espaço.

Meu tio João (que eu pensava que era o dono do arroz, mas meu pai desmentiu) esteve aqui em casa e conversou com o papai sobre a venda das tochas. O titio falou que não queria nem de graça, que não serve pra nada, é uma coisa do tipo “estive em águas de Lambari e lembrei-me de você”. É mentira, porque sei que ele nunca esteve em Lambari, e nunca se lembra de trazer presente no aniversário de ninguém.

Acho que foi porque o titio é mentiroso que eles discutiram logo depois do papai dizer, igualzinho disse pra mim, que a tocha é um símbolo importante, e que, se pudesse, ele comprava uma; e o tio João responder rindo que tocha só servia mesmo para “atochar a casa”.

O papai tem mais paciência comigo do que com o tio João, mesmo assim achei melhor nem continuar perguntando sobre a tocha, que são muitas. Continuo sem entender porque, quando eu esqueço um plural ele briga comigo, mas ele pode dizer a tocha no lugar de as tochas, que são muitas.

(Quem estiver no Rio não deve perder a exposição “Millôr: obra gráfica” no Instituto Moreira Salles até agosto de 2016)

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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