Crônicas

Adolescentes

Adalberto dos Santos

Adolescente não faz bem à saúde. Definitivamente não faz. Digo, eles não fazem. São uns chatos de galocha. Uma mala sem alça. Uma febre reumática, uma tosse que não pára quando se quer dormir de cansado. Antes qualquer criançazinha cheia de dengo e metida a adulta que esses seres sem a experiência da discrição. Bichos sem graça e linguarudos. Por tudo falam, por nada se metem nas coisas que não devem, e ainda acham certo. Não é. Adolescente era para não ser esse sujeito que não sabe o que fala, quando fala, se é hora de falar, quando parar, e se, nesse momento, tenho paciência.

Tipo, eles dizem tipo toda a hora. A todo instante, se cutucam, gritam, riem alto. Na verdade, há vezes em que quase latem como cachorrinhos desmamados. E até isso incomoda. Se desejarem, ninguém lê com eles perto. Ninguém estuda se eles não querem. Alguma vez, raramente, ninguém consegue dormir quando eles na sala. No shopping, a coisa mais desesperadora do mundo é vê-los se alimentar de hambúrgueres e refrigerantes e iniciar um festival de arrotos, como se aquilo fosse o prêmio para a idiotice (e o é). Em casa, é engolir suas porcarias ouvido adentro. E aqueles jogos infernais! Uma erupção deles, a cada dia outro mais novo, com mais detalhes, um tsunami de desinteresse para mil coisas mais importantes.

Ah, quando eles aparecem me vão os nervos. São parte responsável por eu ter deixado de ser professor. Por conta do barulho ensurdecedor que eles fazem a maior parte do tempo na sala de aula, da falta de postura para com o sagrado ensino, não pude ir adiante na perspectiva de dar a eles pílulas de bom senso e discrição. De todos os que cá habitam são os mais destacados em matéria de ansiedade, perturbação e indisciplina.

Eu, que já fui adolescente, claro, e serei pai de uns deles, admito cá entre nós que eles são difíceis.  Embora hoje me arrependa do dever de ter movido e corpo e sentidos para o dissabor dos que me aturaram em tal época da vida, a esta altura vejo como é duro suportá-los. Todo dia ter que vê-los em diversos nichos.  E cada vez mais a me tirarem do sério.

Se fossem apenas uns tolos, cheios de hormônios! Mas não, são também presa fácil das muitas tolices que nós os grandes inventamos. E cegam disso! Eis o que neles mais adoece nossa saúde.

Meu Deus, dê-me a paciência para envelhecer e nunca entender os adolescentes, e se entende-los, não morrer vítima da sua agitação sem tamanho. Dê-me paciência, Senhor, pois sei que sem ela, um dia, um dia, sim, eles me enfartam.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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