Crônicas

Ainda vão falar muito desse cara: álbum “Elvis Presley – O Rei do Rock” (1956/2017)

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Nem sempre o que é bom aparece logo. Às vezes precisa-se de um tempo de maturação. Aquilo que choca, o que é diferente, novidade, atrai atenções positivas e reações adversas, e essa linha tênue que as separa, pode definir destinos. A sorte também escancara algumas portas: estar no lugar certo, na hora exata, com as pessoas devidas, tudo pode conspirar a favor. Ou não, como dizia o velho compositor baiano, tão divino quanto maravilhoso. Pode ser. Mas o primeiro trabalho, tanto quanto o primeiro soutien ou a primeira relação sexual (sem ordem de importância, claro), dizem, ninguém esquece. Há inúmeros exemplos de artistas que estouram e não conseguem repetir a dose. E também seu inverso, começos claudicantes e desenvolvimento natural com a experiência.

Vem de Nashville a estreia de um cantor branco, motorista de caminhão e aprendiz de eletricista, que cisma que é negro, parece ter enorme talento e, notadamente, carisma com as mulheres.

Nada contra as aparências externas. Cauby Peixoto também trilhou o mesmo caminho. Genialidade à parte, os olhos cor de ardósia de Chico Buarque não atrapalharam. Fábio Jr só gravou porque começou galã de tevê, idem Maurício Mattar. Não são todos os casos, mas quase sempre a beleza ajuda se somada ao talento.

Enfim, o seu álbum inicial, gravado nos estúdios da RCA, em Nova York , traz algumas surpresas e boas revelações. O frenético “Tutti Frutti” (Dorothy LaBostrie e Richard Penniman),  hit consagrado por Little Richard, e a dançante “Blue Suede Shoes”, obra prima de Carl Perkins, não deixam ninguém parado. Rock puro, sem gelo. As canções se distribuem, misturando o gênero rockabilly a músicas pretensamente  românticas e algum country. “I Love you because”, de Leon Payne, e “Blue moon” (Rodgers e Hart) provam a qualidade do intérprete sem, no entanto, garantir ser um sucesso. Onde há fumaça pode haver fogo. É o caso de “Trying to get you” (Rose Marie McCoy e Margie Singleton), gravado em Memphis, no Tennessee. Do tradicional grupo de soul, The Drifters, vem a ótima de Jesse Stone, “Money Honey”.

Não arrisco dizer que o disco todo é bom. Nas doze faixas, produzidas por Sam Phillips, há passagens realmente que chamam a atenção, outras só a voz melosa e propositadamente dirigida ao público feminino. Contudo, devem-se admitir algumas qualidades no moço.

Os músicos convidados destacam-se: Scotty Moore e Chet Atkins (parceiro de Mark Knopfler do Dire Straits) nas guitarras; Bill Black no baixo; Floyd Cramer no piano; e D.J. Fontana e Johnny Bernero na bateria.

Mirando no mercado teen e viajando na exploração de ritmos da moda, o disco diverte, embora não empolgue e, tirante o visual arrojado e o topete exagerado, o cantor rebola bem mais do que canta. Bem melhor que um Dean Martin e sem o alcance vocal de um Sinatra, o iniciante promete.

(*) Uma boa dica para conhecer o começo da carreira do Rei do Rock é o livro recém-lançado da trilogia “As Crônicas de Elvis” (Ed. Tinta Negra), de Daniel Frazão, que aborda a vida do ídolo sob a forma de biografia romanceada, pegando o período inicial e sua ascensão na década de 50.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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