Algum cinema, pouca política e muita putaria

by Tchello d'Barros | 13/07/2017 08:25

Pretérito Perfeito é um documentário que conta sobre o antigo e famoso prostíbulo carioca Casa Rosa, hoje um centro cultural no bairro Laranjeiras. O filme mostra o local sendo revisitado por antigos frequentadores, boêmios saudosos, e mesmo figuras conhecidas, como o cartunista Lan, que confessou ter tomado um porre e dormido por lá mesmo, e o roqueiro Lobão, que disse ter tido lá sua iniciação sexual, além de tomar um guaraná. Pode haver quem reclame de falta de ‘mulher pelada’ no filme, já que se trata de um famoso puteiro de outrora, mas isso foi, digamos, compensado com os depoimentos tórridos de Dona Ivanilda, uma prostituta de 65 anos, ainda na ativa, e que lá iniciou sua carreira, quando ainda era menor de idade. Picante!

Mas nos relatos dos participantes, fica-se sabendo que essa casa de prestação de serviços na terceirização do desejo, que funcionou até 1991, não era necessariamente ‘uma zona’, mas um local bonito e bem decorado, com bebidas importadas, jantares especiais, elegantes moças educadas, tudo isso em um ambiente de sedução e bom-gosto, com apresentações musicais, sendo que até mesmo orquestras se apresentavam no local. Bem, nostalgias à parte, o fato é que o filme mostra que a casa era frequentada pelos poderosos da época, em especial a classe política, que lá se encontrava não apenas para gastar um pouco dos lucros, digamos, mas também para alinhavar conchavos e conluios. É o meretrício penetrando como tema transversal entre o poder e a política.

Um documentário assim, com a direção segura de Gustavo Pizzi, além de bem realizado tecnicamente, aponta para a algumas referências instigantes. A primeira delas, ainda no campo do Cinema, sem dúvida é o longa-metragem Amor, Estranho Amor, estrelado por Xuxa, Matilde Mastrangi e a blumenauense Vera Fisher, em performances, e formas físicas, que fizeram dessa obra um clássico, desses que vivem apagando na Internet mas sempre reaparece. Ocorre que essa mesma temática, poder e política num ambiente de baixo calão, digamos assim, aparece aí também, só que desta vez, numa chique casa de tolerância em São Paulo, onde lá também os poderosos da época se encontravam para, entre atividades menos confessáveis, decidirem os destinos da nação.

Se trouxemos o assunto para um âmbito mais amplo, lancemos então um olhar mais contemporâneo sobre o mesmo e fatalmente vamos nos encontrar com outra obra literária, o livro Pornô Política do também cineasta e hoje cronista polêmico Arnaldo Jabor. Ora, se outrora ele dizia num de seus filmes que “toda nudez será castigada”, nesse livro ficamos sabendo que agora está tudo é escancarado mesmo, já que várias crônicas, ainda que de viés ficcional, remetem aos escândalos amplamente divulgados na imprensa brasileira. Não são novidade as diversas reportagens sobre as farras e orgias com prostitutas de luxo, que iam até mesmo de avião para Brasília, especialmente para atender os distintos parlamentares, congressistas e políticos de todos os naipes. Baixo calão com políticos de alto escalão. E quem paga tudo isso?

Quando Lêdo Ivo, já vivendo no Rio de Janeiro, toma posse na Academia Brasileira de Letras, não imaginava que seu melhor livro, uma obra em prosa, Ninho de Cobras, dialogaria de certa forma com um futuro documentário como esse. No romance do bardo alagoano acontecem encontros de políticos num prostíbulo da capital Maceió, onde ocorriam além de bebericações e comilanças, muitas orgias nas madrugadas afora Tudo em um ambiente onde as urdiduras e tramas da policalha da época definiam alguns destinos políticos daquele povo. Mas é claro que tratava-se de pura ficção!

Talvez o que de fato esteja latente entre os fotogramas de Pretérito Perfeito é que essa mistura de sexo terceirizado com poder político, seja um mal constante e extemporâneo em todos os cantos do país, um reflexo de nossa condição de terceiro-mundistas dos “tristes trópicos”. Somos lembrados em 24 quadros por segundo que ainda não aprendemos direito a meter um bom voto na fresta da urna, ainda não sabemos direito onde enfiar o dedo nas eleições digitais, ainda não fomos plenamente desvirginados para os albores da democracia, ainda estamos por aprender a gozar plenamente de nossos direitos civis. A política em nosso país é uma mistura de filme de gângsters, melodrama e comédia, num roteiro onde somos personagens mas também ajudamos a escrever, na expectativa de que o clímax dessa história aponte para um final que, esperamos, seja um pouco mais feliz.

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