Crônicas

Anotações de 11 de Agosto de 2014

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Nos raios da manhã, minha irmã se vai, observo-a pela janela até as árvores ao longo da calçada ocultarem sua sombra. É uma belíssima manhã de Agosto, esta. O sol invade o aposento em que me encontro, sentada à cadeira de meu escritório conjugado. Uso óculos escuros dentro de casa às 7h.

Minha primeira impressão de hoje foi abrir a janela e tragar a maresia, como quem traga, viciado, seu primeiro cigarro do dia. O reflexo das águas hipnotiza-me, o laranja faz fundo ao voo das gaivotas – pretas, de tão longínquas -, faz-me fechar os olhos e sorrir. Sinto falta da varanda em Roma, há pouco minha, ora um passado presente só nas memórias… o amanhecer não era assim tão agitado: ouve-se, distante, o cantar das andorinhas, e tão perto o das gaivotas e corvos (mesmo sendo uma segunda-feira, como esta). O sol me aquece; estou dando bom dia ao parque, uma bela barreira visual frente ao pavilhão de edifícios: essa é Roma, a minha. Rio, Cristo Redentor aberto às minhas costas e alinhado ao Pão de Açúcar na fotografia que tenho em minha frente. Pão de Açúcar que por uma infeliz arquitetura do destino não vejo, mas pontua minha incrível visão da Praia de Botafogo. Foi feito para mim. Já não faz tanta falta a varanda.

Gosto de diferentes pontos de vista. Por isso, às vezes, subo em cadeiras e mesas e observo tudo ao redor. Se estou feliz, ainda canto. Como hoje; pego o violão por anos desafinado e canto uma MPB com acordes inventados e sem sentido. É o resquício do Dolce Far Niente, a Italia que em mim criou raízes, fez morada e promete não me deixar jamais…

A cortina balança, querendo descortinar toda a vidraça. Sinto cócegas, penso em caminhar – mais tarde, quem sabe. Tiro fotografias digitais, ainda de óculos escuros. Vai virar moda para mim. Volto a observar o pão de açúcar em preto e branco entre meus dedos, a intensidade da luz transforma o vidro da fotografia em um espelho e, de repente, estou dentro do porta-retrato, sou o movimento frente à estática praia – que na vida real está do outro lado do mar. E vejo meu prédio, ao fundo. E nele estou dentro. Que paradoxo seria se assim não me pontuasse diferentemente.

Na orla da praia, pela janela, vejo edificações novas. A cidade cresceu em 12 meses. Eu tenho um novo corte de cabelo, quase 3 primaveras a mais e olhos que viram um pouco mais do mundo, muito além do mundo de muitos. Tenho colunas cansadas e a mesma sede, se não maior, de experimentar, E assim vou me acostumando a velha/nova vida na capital, a Botafogo, Ilha do Fundão, Ponte Rio/Niterói, Praça XV sem o elevado da extinta Perimetral e Copacabana. A ideia do tropical reina ali, na esquina da Princesa Isabel com a Praia, ao entardecer. Eu vejo tudo com outros olhos, estranhos e desentendidos.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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