Crônicas

Ante à Monotonia

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Monotonia é talvez uma doença proveniente da agitação em que a época contemporânea se encontra. Que paradoxo!, você pensa, ao reler a frase acima e perceber que “monotonia” e “agitação” apresentam-se em sintonia. Parece um equívoco, porém me explico: a opressiva rotina a que nos impomos, seja por trabalhar para ganhar dinheiro, preocupações com filhos, estudo, relacionamentos e carreira, ou por vícios – e até algumas virtudes -, faz de nós desatentos, corriqueiros seres corredores, sempre sem tempo, sempre ocupados. Somos pêndulos em um constante ritmo infinito, relógios independentes de bateria alguma e uma cascata cuja única certeza é a riqueza inesgotável de suas águas. Somos suor, passos, olhares e sorrisos perdidos.

É aí, no auge dessa inércia de vida que algo, então, chama a sua atenção. Um simples choque. Como a Cow Parade em São Paulo, que deu a Martha Medeiros o ponta pé do seu “Veneno Antimonotonia”, o capítulo primeiro de “Doidas e Santas”. Não estive por lá à época, mas quando uma vaca “bronzeada” postou-se ao lado de Carlos Drummond de Andrade para ler um de seus livros frente ao autor, ali a vida estourou, ao mesmo tempo que as ondas de Copacabana, ao fundo; um uníssono perfeito.

Isso já faz uns bons 6 anos, se me lembro bem, e também há alguns anos pessoas ligaram desesperadas para a polícia carioca anunciando suicidas que pulariam de prédios a qualquer momento. O momento, qualquer que fosse, nunca chegou; tratava-se de esculturas em forma humana. Novamente a vida, parecendo quase por fim, renovou as energias em muitos cidadãos.

Concordo com a Medeiros e repito pois sua escrita, para mim, mais impactante: “Poesia” – e arte em geral, acrescentaria eu – “serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento”.

Parodiando Shakespeare em sua-minha frase preferida: “tratai bem os” artistas “pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”. Para curar a monotonia é preciso parar, é preciso fechar ou piscar os olhos, respirar, sorrir ou espantar-se, meditar ou deixar-se transformar. Para isso existem os artistas.

Mas, se por força de um destino traiçoeiro, uma vaca não cruzar o seu caminho no meio da Avenida Rio Branco – ou na Conde de Bonfim, quiçá Sernambetiba – pergunte-se o que você poderia fazer para ter a mesma reação que lhe afetaria a dita cuja; quem sabe se, ao desviar a atenção do seu trajeto por alguns segundos – não muitos, em se tratando do infortúnio que o nível de segurança na cidade poderia lhe ocorrer – possa perceber que a vida é uma loucura que vale a pena ser vivida. Ante à monotonia, “desagite-se”.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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