Crônicas

Antes fosse um problema de escrita

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Encontro-me em estado terminal. Desses em que os médicos diriam não ter remédio, a conjuntura é realmente grave (porém, precisa).

Pela primeira vez em toda a minha vida, está sendo extremamente difícil escrever. A angústia no ato de contar dilacera meus pulsos, acelera a respiração e faz lacrimejar os olhos – que ultimamente têm se mostrado, em um paralelo paradoxal – cada vez mais maduros, audaciosos e encantadores. Isso é a tradução de uma série de confusões em que se encontra o meu interior, e talvez esta revolta tenha seu ápice na aplicação futuramente breve de um piercing pequenono lado esquerdo do nariz, uma acanhada peça de strass, sem qualquer significação ideológica (puramente estético).

Eu tento. Alguém uma vez me disse que a mente humana é formada por três camadas, e que elas funcionam concomitantemente. Sempre que paro para analisar o fato, sinto que elas abraçavam-se em um nó, e vivencio alguns segundos de confusão, aflição psíquica e placidez – simultaneamente. Ao refletir sobre isto, acho que o meu cérebro é como uma cebola: com muitas e muitas camadas sobrepostas, possuidor de um odor desagradável, que faz chorar aqueles que se aproximam, mas essencial para determinadas finalidades.

Minha vida nunca esteve tão agitada e agradeço diariamente pelo caso. Vivo na capital do meu estado, perto do mar, inserida na existência cultural da cidade, o que sempre me motivou a mudar de urbe, quando fosse tempo da faculdade. O problema é que não me desliguei por completo da terra de minha origem: subo a serra quinzenalmente, meus pais e irmã aqui ainda residem e estou na reta final do meu tão amado corso d’italiano. Quando chego, estou exausta. Fora a viagem – que nem chega a ser cansativa, visto ser a hora em que realmente durmo -, são os mil trabalhos de Arquitetura, cenas teatrais para decorar, o arruma-desarruma mala, as tentativas de conciliar isso tudo com o rever de amigos, atualizar dos acontecimentos em casa, uma volta ou outra pela rua… E o tempo de ler e escrever, aonde é que fica? Eu não passo um dia sequer sem ler qualquer coisa que não tenha a ver com a faculdade, e isso pede mais tempo, nem que sejam segundos. Tempo é coisa escassa nos dias de hoje, e talvez, por isso, nesse ambiente capitalista decadente (em que todo mundo reclama de dívidas) nunca tenha valido tanto a expressão “tempo é dinheiro”.

Não quero aprofundar-me neste tópico, finanças é algo deveras corrente lá em casa e isso também está talhando meu carisma na escrita. Sem contar as transformações hormonais – em virtude do cada vez mais feminino fenômeno uterino “poli-cistos” -, o distúrbio da supra-renal, algumas randômicas espinhas, a saudade de pintar, o acanhamento em cantar (visto que resido a maior parte do mês na casa de uma tia), a necessidade de controle gastronômico (novidade!) e a união disso tudo, a imensa vontade de gritar, chorar e ficar invisível, surda, muda, paralisada, por alguns mágicos instantes.

Encontro-me em estado terminal. Desses em que os médicos diriam não ter remédio, a conjuntura é realmente grave (porém, precisa). Está no fim a fase da juventude, hora de aprimorar a já apurada responsabilidade e entrar na casa dos vinte.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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