Crônicas

Aos dezoito anos

Tarcísio Pereira
Escrito por Tarcísio Pereira

Aos dezoito anos, tive o atrevimento de escrever um livro de memórias. Atrevimento, isso mesmo, porque, aos dezoito anos, nunca se está literariamente maduro, e quase não se possui material de vida suficiente para um livro de memórias que seja útil ao público.

Pode-se, sim, escrever um livro de memórias aos dezoito anos, mas no caso de existir um fato realmente digno de ser contado. No meu caso, não havia um único episódio excepcional. Talvez algum saudosismo, ou influência das leituras de ocasião como as memórias de José Lins do Rego, José Américo e Jorge Amado. Mas o que mais existia, na verdade, era aquela pretensão de ser escritor. Como não possuía uma história para fazer um romance, pensei na própria vida, ou nos relatos da infância, completei meus dezoito anos e, com essa sensação de maioridade, bati com orgulho no peito e disse a mim mesmo:

– Agora sou de maior. Já posso escrever um livro.

E como papel agüenta tudo, como dizia Graciliano, sapequei um punhado de bobagens em mais de duzentas folhas de papel ofício. Ali falava das primeiras impressões de vida, das brincadeiras de rua, das viagens ao campo e de uma certa desilusão amorosa que, na época, considerava uma enorme tragédia.

Mas falava, sobretudo, de uma casa. E é dessa casa que quero falar agora. Para que me entendam, vou transcrever o primeiro parágrafo daquele pretenso memorialismo que escrevi aos dezoito anos.

O livro começava assim:

“NO FRONTISPÍCIO de minha casa tinha uma sigla, MS, as iniciais de dona Maria de Sousa, minha avó. Essas letras no topo daquela casa quadrada, com três janelas frontais e toda azul, como uma tumba, eram motivo do meu orgulho, pois a casa era diferente das outras e uma das mais antigas da rua. Havia uma área lateral com um portãozinho estreito e uma parede alta com dois banquinhos de cimento em cima, onde eu costumava rematar os fins de tarde vendo a vida passar, escrevendo canções musicais ou lendo coisas que agora não lembro mais o que eram”.

O trecho está nos rascunhos daquele livro que ainda tenho guardado, embora não pretenda publicá-lo (pelo menos na forma em que fora escrito). A casa, no entanto, em que pesem a descrição de sua rotina doméstica, e as sensações que ocorriam ali dentro, parece-me o único elemento de material literário. Não tanto pela pieguice dos fatos – mas, antes, por questões afetivas em relação à mesma.

Atualmente tenho fortes razões para pensar assim – principalmente depois da semana passada, quando estive em Pombal e fui rever minha casa de vinte e sete anos atrás.

Pombal, como todas as cidades do interior, não é nenhuma exceção a essa avalanche de reformas que, nas últimas décadas, vêm adulterando os nossos valores arquitetônicos. A vaidade humana, ou a “ambição que destrói coisas belas”, também destruiu sistematicamente uma grande parte dos casarões pombalenses. A Rua João Pessoa, uma das mais importantes daquela comarca, possuía suas casas com fachadas primitivas, rústicas e, portanto, originais. Nestas quase três décadas, sempre que retornei à minha terra, tenho encontrado uma casa em lugar de outra. Às vezes se mantém ali a mesma família, o imóvel está fincado sobre o mesmo chão, mas o prédio é outro, com traços novos e vidraças nas portas.

O que sempre me chamava a atenção, e me enchia de orgulho, era ver que a minha casa se mantinha intacta. E por muitos anos ficou trancada, sem ninguém que alugasse ou fizesse reforma, como se ali se alojasse alguma maldição. Orgulhava-me olhar para cima e ver ali as duas letras referenciais do meu sangue, MS, “as iniciais de dona Maria de Sousa, minha avó”.

Eu voltava no ano seguinte, depois no outro e assim sempre, e ainda encontrava aquelas siglas no topo e as mesmas paredes resistindo ao tempo, contrastando e destoando de todas as reformas adjacentes. No ano passado, parei o carro na frente, procurei informações e prometi a mim mesmo que, quando tivesse recursos, compraria a minha velha casa e ali construiria uma biblioteca, um museu ou um teatro, e isto passou a ser um sonho mais de afeição do que de consumo. E, com uma vaidade secreta, estive convencido de que aquela casa estava exatamente me esperando. Ninguém a tocava, pois estava me esperando.

Voltei agora, em trinta e um de dezembro, e recebi uma facada no coração. Ao contrário do ano anterior, a casa está mutilada para um princípio de reforma moderna. Paredes em ruínas, pela metade, e um mato cobrindo todos os compartimentos internos. Tudo bem que não posso comprá-la; tudo bem que demoliram as paredes – mas apelo a quem for de direito para que renove, em sua reconstrução, toda a sua estrutura original.

Apelo ao senhor que é o proprietário; ao senhor que é engenheiro ou arquiteto; ao senhor que é prefeito e a todos os grupos ou associações preservacionistas. Já nem peço por mim, por uma afeição pessoal, mas pelo único patrimônio que vinha resistindo na rua. Essa casa esperou durante tantos anos como uma exceção, e não é agora que deve se entregar às intempéries imobiliárias.

Por favor, ainda está em tempo. Estou falando de uma casa na cidade de Pombal, sita à Rua Presidente João Pessoa, de número Cento e Oitenta e Três!

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Tarcísio Pereira

Tarcísio Pereira

Jornalista e Publicitário, Escritor e Teatrólogo, atua nas áreas de comunicação e cultura.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: