Crônicas

Apelido

André Lucidi
Escrito por André Lucidi

Não existe coisa mais embaraçosa do que aquele apelido que ganhamos dos amigos na infância. O que era uma simples piada, alusiva a um momento, um tempo, uma história que se passou e que era para ser recordada pelos que lá estavam no momento em que ele surgiu, que simplesmente acolhemos por amizade ou por tolerância, pode nos colocar em uma encrenca a qual realmente não esperávamos.

Quem tem um, sabe disto. Muitos, tentam contornar a situação, quando confrontados em momentos delicados. Imaginem só: você está no metrô, com aquele colega da empresa, conversando algo sério e de repente alguém bate no teu ombro e diz:

– Bicho de goiaba, o alfredão me telefonou e tua sunga de praia ainda está lá na casa dele. Como ele brigou contigo, mandou você ir buscar na casa do nego baba.

Poderia ser pior, como aconteceu com um amigo meu. Em meio aquele momento tentando impressionar uma nova conquista em uma boate do Rio de Janeiro, sentou em uma mesa a luz de velas em um canto, onde acreditou que poderia ter todo o sossego necessário para conversar. Eis que chega o garçom, entrega o menu e ele, que, ao tentar impressionar a moça, dirige-se de volta ao garçom, pede a garrafa mais cara da casa. Foi quando os dois se olharam face a face e o garçom não se conteve de emoção.

– Manguaça! Você!

Manguaça, tem muito tempo que não te vejo! Me dá um abraço! A senhorita já conhece o Manguaça? Se não conhece, saiba que está sentada com o pior pescador oceânico que já existiu!

– Manguaça, já que você vai se gabar, pois eu te conheço, conta aquela vez que estávamos no mar e você passou mal e vomitou em cima das iscas! Esse é o manguaça!

Antes que ele pudesse dizer algo,a moça perguntou se ele era pescador, O garçom atropelou a conversa.
_ O manguaça ….Manguaça,que saudades !! Moça,ele não pesca,mas mente para cacete.

A moça murchou no momento. Manguaça tentou contornar a situação como pode.

– O senhor está em confundindo com alguém. Mas o garçom foi implacável. Não deu sossego.

– Manguaça, você pensou que eu esqueceria o teu rosto depois de todos estes anos. Mas eu não poderia nunca te esquecer. Você sumiu! Foi logo depois daquela prima do Ferreira, que saía contigo e com o Alfredão, engravidar. Olha, a criança já nasceu. Está com os teus olhos, mas o rosto é do Alfredão. Inclusive, pediram que caso eu te encontrasse, que era melhor você botar dois reais no cavalo e sair galopando, que o irmão dela está querendo saber quem é o pai da criança!

A moça fez menção de levantar da mesa e ir desfilar seus quadris em outro lugar, mas o garçom, percebendo finalmente que estava atrapalhando, resolveu ele mesmo contornar a situação.

A senhora me desculpe, foi somente um momento de emoção da minha parte. Podem ser meus óculos, tenho que mudar de grau e sem eles, não enxergo nada. Vocês querem mesmo o chateau Lafitte 1971, ou outro vinho pode servir?

Ele, enfim, se recompôs e respirando fundo, disse que sim, que queria o ChateauLafitte 1971. O garçom se retirou e ele ficou comentando com a moça como os garçons hoje em dia estavam “entrões”. Ela, dando um voto de confiança, disse que ele tinha razão.

Não se passaram cinco minutos, o garçom retornou com uma garrafa de 51 no gelo e dois limões cortados. Ao reclamar que aquele não havia sido seu pedido, o garçom respondeu imediatamente.

Eu conversei com o patrão ele disse que seu nome é Carlos Roberto Da Silva, que te conhece bem, mas que sua pendura na casa está muito alta e que em solidariedade a senhorita, oferece esta garrafa e os limões. Meus dez por cento, você paga.

A moça levantou da mesa e sumiu no meio da pista de dança próxima. Ele olhou para o garçom, com cara de criança que se perdeu e, antes que pudesse dizer algo, o garçom mesmo encerrou o assunto.

– Não liga não, elas hoje em dia estão muito interesseiras. Bota uma prá mim também!

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Sobre o Autor

André Lucidi

André Lucidi

Um cara de bem com a vida. Nada mais. Artista multimídia, que faz cinema e animação e literatura. Colaborador de Greenpeace e me considero eco-anarquista.

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