Crônicas

APOSTAS

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

A vida é uma aposta. Não uma bosta, mas uma aposta. Uma série delas. Você começa apostando uma corrida que raros vencem. Somente os espermatozóides mais alucinados e afoitos. Dá para se ter uma breve ideia do ser que virá. E esse cara já segue apostando, fazendo sua fé em que as mamadeiras serão eternas e que as tetas se perpetuarão.. Depois, aposta que a vida adulta será mais interessante e animada. Passa um tempo e aposta que nunca mais esquecerá aquele grande amor que o tempo encarregar-se-á de desvanecer. Com a proximidade da falência física e quase mental, chega-se até a apostar numa outra chance. Nova encarnação, outra aposta.

O ato de apostar requer otimismo, é a hora do lúdico, do jogo conveniente, da busca pela sorte grande, o sucesso como meta e alívio. Aposta-se quando não se percebe a lógica do perdedor. Sim, as apostas têm sempre uma lógica, cujo perfeito entendimento há que ser rápido, senão transformar-se-á no trágico.

Lembro aqui a incrível história do jogador que dormiu sete horas de sono, acordou às sete em ponto, teria que depositar sete mil no banco e o número da conta tinha vários setes. Lógico tratar-se de um sinal. Um aviso. Sonhara a noite toda com cavalos. Pegou então o jornal e reparou que era dia sete. Abriu na página do turfe. No sétimo páreo, lá estava o cavalo Sete Vidas, número sete. Não teve dúvidas, jogou toda a grana, os sete mil. Deu a lógica: o cavalo saiu na frente e na reta final parou, terminando em sétimo lugar. Assim é a fé, anunciando a promessa do cavalo apostado na ponta. Fé cega, faca amolada. Acirra-se a fé, amolam-se as facas, atolam-se as vacas. Ou os cavalinhos.

Tem também a história de um jogador em Las Vegas que acertou na roleta quatro vezes seguidas um pleno (para os leigos, um mesmo número cravado em 36 possíveis). Não, não era o sete. O número não importa, o que vale é que ele morreu logo depois, sem causa aparente. Quem sabe justo por isso. Um defunto milionário. Ou seja, apostou que tudo ia mudar. Mudou mesmo, só que nunca saberemos se foi para melhor. Não há aqueles que dizem na hora da morte que o fulano foi desta para melhor? Então, não custa ser otimista. A cegueira da esperança.

O certo é que perdemos para aprender. Alguém já disse que ou se ganha ou se aprende, mas nunca se perde. Balela.

A verdade é que ninguém aposta impunemente.

Aposto que você um dia já apostou. Perdas e ganhos, se bem que nada pode ser considerado definitivamente perdido. Até o mais azarado servirá de mau exemplo. Nada se perde. Lavoisier sabia bem do assunto, e sobre a sua lei, qualquer apedeuta já ouviu falar. Até mesmo o ignorante que não sabe que apedeuta é ignorante.

O que se vê nas ruas não anima. Veja o bordão dos assaltantes aos assaltados: perdeu!

No fim perde-se de tudo: as chaves; o guarda-chuva; a grande chance que bateu à porta; o fôlego; a cabeça; a virgindade (sim, ainda se perde isso); a morena de vista; os cabelos; a paciência com o mundo; a compostura; o ente querido, enfim, há bem mais perdas que danos. Dane-se.

Mas também se pode ganhar: rugas; experiência; neném (obviamente as mulheres grávidas); uns quilinhos a mais; no pôquer com os amigos, enfim, quando a sorte é companheira.

No cômputo geral, se ganha bem pouco (incluindo-se aí o salário) se confrontarmos com o que se perde. E a base do raciocínio é o próprio tempo. Como se perde tempo, não?

Não faz muito tempo apostei num presidente…

A vida é uma aposta, senhores. Façam seus jogos; beijem suas fichas; confiem em suas cartas; assoprem os dados; escolham os números exatos da loteria. De minha parte, enquanto puder, fico por aqui jogando, apostando, me perdendo e achando. Afinal, desconhecemos por completo as regras do jogo que nos espera no final das horas. Carpe diem que a finitude é logo ali. Nisso você pode apostar.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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