Crônicas

APRENDER A OLHAR

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Era um menino pequeno e magro nas ruas da grande cidade.

Os edifícios e o movimento dos carros e das pessoas, porém, não o assustavam. Ao contrário, ele nem percebia a agitação.

Era um menino pobre que vivia nas ruas.

Mas este menino era diferente de outros. Ele vivia com os olhos no céu! Adorava aviões e helicópteros que passavam de quando em vez riscando a imensidão azul.

O triste cinza da cidade não o desanimavam nunca!

Adorava pipas e, vez por outra, ele corria pelas avenidas empinando uma pipa simples. E sorria. Ela, a pipa, dava voltas e mais voltas, dançava, descia e subia em movimentos ora rápidos e precisos, ora longos e improvisados. Era uma festa!

Eu, sempre que passava pela grande avenida, com a pressa costumeira, não dava muita atenção, no entanto, num dia, por culpa de um café na camisa, contive a pressa, sentei em um banco para tentar limpar a mancha e… Foi aí que vi pela primeira vez o menino magro que corria feliz empinando sua pipa!

Ele também gostava muito de balões, mas estes, ao contrário dos aviões, dos helicópteros e das pipas, eram raros, bem raros.

Em muitas outras ocasiões, passei pela mesma avenida (agora sem a pressa de sempre) e procurava achar o menino.

E era certo vê-lo pulando e sorrindo. Olhava o céu!

Um certo dia, quando o vi, aproximei-me dele e, sem receio, perguntei o porquê de tanto olhar para o céu.

A resposta do menino me calou por longos minutos. A resposta do menino me fez pensar sobre tanta coisa que, quando dei por mim, ele já havia sumido dali com o seu sorriso e sua simplicidade.

O menino olhava para o céu porque era muito bonito. A rua era feia. A cidade era feia, mas o céu bonito. Por que olhar o feio se há um céu tão grande e azul todos os dias lá no alto.

Eu ri de mim mesmo e fiquei pensando que era certo aquilo: olhar para cima, olhar para o céu…

Nunca mais vi aquele menino, mas passei a olhar com mais frequência o céu…

 

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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