Crônicas

Aramando Nogueira: o último dos moicanos poéticos da crônica verde e amarela

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

(para o meu irmão quase virou ji-paranaense)*

Um dos mais assíduos dos meus dois leitores imeiliza (nunca esqueçam: do verbo “imeilizar”, enviar imeio) pedindo que este escriba, passada a comoção geral, escreva sobre o Armando Nogueira, o último dos nossos cronistas-poéticos (“eu não sou poeta, sou poético!”) do verde e amarelo. E se digo o último é porque Rubem Braga, Antonio Maria, Paulo Mendes Campos e Carlinhos de Oliveira, apressados, foram antes. O Vinícius de Moraes? Esse não vale. Vinícius era um poeta que escrevia crônicas.

O imeio, uma confissão que eu gostaria de fazer antes de encerrar as mal-traçadas de hoje, me pegou de surpresa. Uma vez que esse leitor somente raras vezes pede ao escriba alguma coisa. Pois bem. Recebo o pedido e, antes mesmo de colocar a casa da memória em ordem, pesco no lago do esquecimento as coisas que guardo e gosto desse acreano que virou mais carioca do que muitos cariocas ali nascidos, e cariocas outros que para o Acre se foram. E a bola vai rolando no campo das lembranças.

Nunca imaginei encontrar o Armando Nogueira, mesmo não sendo/estando jogador, fora de um campo de futebol. Armando não jogava. Nem palavras fora. Era um sujeito que se identificava tanto com o que escrevia que era impossível vê-lo escrevendo sobre outra coisa. Estava para o esporte, principalmente o futebol, como o Jorge Amado para a Bahia e o Zé Lins – mais que o Zé Américo – para a nossa Parahyba.

Armando Nogueira tinha a simplicidade e mesma a característica de outros cronistas – os citados são bons exemplos – que dessa simplicidade fizeram uso em seus escritos. Mas, assim como outro dia este escriba fez questão de escrever, escrever fácil e simples não é tão fácil e simples quantos muitos iludidos com a palavra apregoam por aí. Simplicidade não é um exemplo de facilidade nem do mínimo ou nenhum esforço.

Armando Nogueira confessava para os amigos a sua dor. Falava do esforço, da luta que travava com as palavras em suas poéticas descrições de jogadores, campos, dribles e gols. Um de seus amigos, o Daniel Filho, lembrou que o Armando chegava quase ao desespero na busca dessa simplicidade no ato escrever. Nunca duvidei. Também sinto na pele. Sinto na alma.

O Armando Nogueira também era um frasista de inegável qualidade poética. Muitas de suas frases se assemelham a um haicai. Eram medidas, calculadas, lapidadas. E, se não bastasse, com finais previamente escolhidos. Muitos de seus textos pareciam escritos a partir de uma frase que descobrira assistindo a um drible de Garrincha ou uma bicicleta, para ele, o atleta perfeito, do rei Pelé.

Armando Nogueira parecia que contava as suas histórias partindo de um fato isolado. Se a bola antes de entrar no gol fizesse uma curva inesperada, como, por exemplo, aquela do inesquecível gol do Nelinho na copa de 78, contra a seleção italiana, o Armando, como acredito ter feito, mas não asseguro por não ter essa certeza, muito antes de falar da bola que tratava a com o carinho próprio dos craques da pelota, falaria de uma “curva perfeita pedindo como recompensa dessa perfeição um gol somente olhos abertos e paixão explodindo dentro do peito de cada torcedor”.

Suas frases não surgiam por acaso. Não aconteciam, como, não raras vezes acontece, acontece com quem escreve como respira (sei da repetição). Ele vinha – sem muito conversa e sem muito explicar – com frases que pareciam feitas no balançar de uma rede pendurada na varanda do prazer. Porém, embora muitos não percebessem, elas exigiam do escritor um trabalho feladaputa. Frases que parecem feitas apenas para ilustrar uma conversa sem brilho de um jogador de futebol.

O Armando Nogueira, sem poder evitar cair no lugar comum, mas caindo por que outro lugar, nesse momento, não me cairia melhor, não deixou um só substituto para entrar, descansado, no segundo tempo, e fazer o gol que ele, cansado, não pode fazer. E, por favor, não me venham com réplicas, dizendo que ninguém, pelo menos por enquanto, é insubstituível. Os exemplos são muitos. Chaplin, Walt Disney, Einstein, Beethoven, Mozart, Picasso, Mario Quintana, Pixinguinha, Heráclito de Almeida, Dona Chiquinha, Leonardo, Tota…

Desculpem, esqueci que o imeio enviado por ele, esse leitor que conhece muito bem este escriba, era para falar sobre o último dos nossos cronistas-poéticos. Mas, afinal, quem poderá dizer que esses últimos, Heráclito, Chiquinha, Leonardo e Tota, cada um a sua maneira, não foram cronistas e poetas do seu tempo?

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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