AS JANELAS E O TEMPO

by Campista Cabral | 10/10/2017 16:06

A janela está aberta e o vento vai derrubando as coisas, todas elas. Fotos, papéis, uma caneta azul, uma caixa pequena, elásticos e um sem fim de coisas que vão parar no chão.

Quando finalmente fecho o vidro, me dou conta da bagunça: tudo espalhado!

Na verdade, ao invés de arrumar os objetos que foram lançados pelo vento, penso que seria melhor não fazer absolutamente nada.

É exatamente o que a maioria de nós faz: acertar tudo! Endireitar tudo! Organizar as coisas e o próprio tempo!

No entanto, não podemos organizar quase nada! Temos a pretensão de mexer em tudo e, milimetricamente, acharmos que é melhor que as coisas fiquem do jeito que consideramos melhor!

Me aproximo da janela e volto abrir o vidro. O vento, de novo, entra e recomeça o seu trabalho. Mais objetos vão ao chão. Mais folhas se misturam às fotos. E deixo que o vento cumpra o seu dever: ventar!

E eis o grande mistério de tudo isso: tudo assumirá uma posição e um formato, independente do nosso gosto ou desejo.

Fiquei a pensar na vida e na ânsia que temos de delimitar o tempo: o dia certo, o segundo perfeito, a semana tal, o mês do pagamento. E fechamos e delimitamos e organizamos milésimos…

Olhei para o relógio e não pude deixar de rir. A perseguição mais idiota de todas: um ponteiro que nunca alcançará o outro, salvo se o relógio quebrar, mas, se isso ocorrer, a função do próprio relógio deixará de ser!

E assim ficamos controlando o tempo e as pessoas, como se tivéssemos mesmo esse poder!

Dada a confusão no meu quarto, decidi que era hora de fechar em definitivo a janela e colocar de vez as coisas em seu lugar!

Depois de guardar item por item, sentei e comecei a rir de novo de nossa ingenuidade. Guardei tudo e tive a sensação de missão cumprida, entretanto, só mesmo a sensação. A vida, esta, nunca esteve contida no quarto ou delimitada por um vidro fechado!

 

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