As letras miúdas das ofertas, o locutor-metralhadora dos anúncios de remédio e o brasileiro sem caráter

by Francci Lunguinho | 17/01/2018 22:50

A história é real. Deixou-me com os nervos à flor da pele e com uma incontrolável ira dessa mania do brasileiro querer se dar bem em tudo.

Há poucos dias parei em um posto de combustível perto da minha casa para abastecer. A ideia era economizar o máximo na semana em que programei uma viagem. O Ipiranga do Recreio dos Bandeirantes, na Avenida das Américas, foi o escolhido porque a faixa anunciava um valor que na hora calculei ser mais em conta do que os demais da minha região em pelo menos 20 centavos.

Se eu fosse malandro mesmo poderia ter percebido que novamente essa história dos 20 centavos não passaria de um embuste.

O letreiro com a tabela no alto e bem fixado apregoando um excelente desconto. Com o combustível pela hora da morte, é absolutamente natural querer correr atrás de preços mais baixos. Não tive dúvida: parei o carro e disse “completa”.

Mesmo sabendo que pedir para completar o tanque do carro hoje em dia no Rio de Janeiro quase significa um pedido de falência.

O custo da gasolina no Estado do Rio é o terceiro mais caro do país, perdendo apenas para o Acre e Minas Gerais. Dizem que são os impostos que encarecem, mas desde ‘Cabral’, todos sabem que os motivos são outros.

O frentista, sorridente, pediu para jogar água nos vidros.

Olhei para o valor que aparece no visor da bomba e já estava passando dos vinte reais.

– Tanque vazio é foda! – pensei.

Resolvi olhar para o letreiro novamente e entendi a pegadinha:

Merrrrmão! Aquilo me encheu de ódio. Gritei um filadupata gigante e mandei parar a bomba nesse exato momento.

O maluco do frentista ainda sem entender nada tentou balbuciar alguma coisa. Tarde demais, eu já havia o segurado pelo colarinho. Ele pediu calma e só desconectou a mangueira de combustível quando já estava em quase cinquenta reais.

Apontei o letreiro e questionei a porra de anúncio que dava um desconto, mas que, na verdade, não era bem assim: tinha umas letras miudinhas explicando que para ter o desconto era necessário ter um certo cartão de desconto.

Que maluquice é essa? Estou farto dessas letrinhas miúdas dos anúncios.

Em dezembro de 2000 quando foi criado a regulamentação sobre propagandas, o Governo Federal queria que mensagens publicitárias e promocionais fossem claras, precisas e de fácil entendimento para o consumidor. A medida foi criada pensando na divulgação dos medicamentos, mas que acabou abraçando outros produtos também. O objetivo era ajudar com informações relevantes para a saúde do consumidor, só que um burocrata se esqueceu de deixar claro para a empresa que vende medicamentos ou para a que faz a propaganda, o quão claro deveria aparecer. Resultado: uma velocidade supersônica na voz dos locutores e/ou letras tão miúdas que ninguém é capaz de ler antes de tomar prejuízo.

O frentista me disse que eu estava errado porque não li direito o letreiro. O dono do posto sempre rir da desgraça dos outros, só pode ser.

Não, seu frentista. Não aceito mais essa desculpa. Na verdade, todo empresário brasileiro deveria ter vergonha na cara e não se aproveitar de normas equivocadas para enganar pessoas que não enxergam bem as letrinhas miúdas. E, todo consumidor brasileiro deveria brigar mais para não aceitar esse tipo de coisa. Sair na porrada nunca é a solução, mas ainda serve como forma de esclarecer algumas letras pequenas.

É isso ou aceitemos que a corrupção sintomática não tem mais cura.

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