Crônicas Música

As músicas mais chatas da MPB

Sérgio Sayeg
Escrito por Sérgio Sayeg

Não, não estamos nos referindo à banda podre da música brasileira, pagode, axé, funk carioca, sertanejo. A MPB cabeça, de qualidade, também tem seus momentos, digamos, infelizes, de baixa inspiração.

Verdade seja dita, a culpa não deve ser creditada exclusivamente aos artistas mas sobretudo às FM´s que repetem exaustivamente em sua programação as músicas mais comerciais (e chatas), aos abomináveis jabás das gravadoras e principalmente ao comportamento do público brasileiro que, além de sua endêmica vocação brega, adora ouvir mais do mesmo ad eternum.

 Como nossos indefesos ouvidos são desprovidos de filtro qualitativo, os estrupícios sonoros neles martelados acabam por fincar-se, à revelia de nossa vontade, nas entranhas de nossa massa encefálica. Sem perceber, tornamo-nos reféns. E o que é pior, involuntariamente nosso cérebro sucumbido começa a processar e nossa boca automaticamente a cantarolar essas pragas.

O primeiro passo para exorcizar esse flagelo é externá-lo, dando nome aos bois. Cada vez que uma dessas canções for anunciada no rádio ou na TV ou identificado o primeiro acorde, o antídoto é imediatamente desligar o aparelho, trocar de emissora ou recorrer a alguma técnica oriental de blindagem da mente, entoando um mantra tão retumbante que impeça que o mal se instale.

Segue como roteiro minha lista particular com as 20 músicas grudes mais chatas da MPB, por ordem crescente de chatice:

20º ) Lulu Santos – De Repente, California

Lulu Santos é campeão de músicas grudentas, algumas até gostosas tal “Como uma Onda” que integra o cancioneiro nacional básico. Outras menos, como essa bobinha “De Repente, Califórnia”, que, com seus versinhos toscos, imagina os valorosos fãs de Dick Dale e dos Beach Boys como tietes de Justin Bieber: “Garota, eu vou pra Califórnia, viver a vida sobre as ondas, vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star” Boa viagem…

19º ) Maria Rita – Cara Valente

Maria Rita entrou com tudo no cenário musical. Seu álbum de estreia de 2003 vendeu metade do que Elis Regina, a maior cantora brasileira de todos os tempos, vendeu em muitos anos de carreira. Exagero? Certamente! Ainda mais que a filha, apesar de alguma semelhança vocal e do bom repertório, não é páreo para o carisma da mãe. Ainda assim, uma boa surpresa nesses tempos de sertanejo universitário. O samba Cara Valente incluído nesse álbum, composto pelo badalado Marcelo Camelo, deveria ser uma sensação, mas o que estraga é aquele nauseante refrão “Ê! Ê! Ele não é de nada Ê! Ê! Ele não é de nada Ê! Ê! Ê! Ê!”

18º ) Luiz Melodia – Pra Aquietar

As canções de Luiz Melodia são bem legais… desde que não haja preocupação em tentar desvendar o inextricável sentido de suas letras herméticas. Ao fim, deve prevalecer a musicalidade e a peculiar interpretação do músico carioca para suas maravilhas contemporâneas. Em meio a pérolas negras, escondem-se todavia algumas bijuterias como essa “Prá Aquietar”. Não há melodia do Luiz que consiga segurar versos como “não posso pra lá paraguaio para, menino de cá faço o tempo parar, coral é natural, café da capital, da roupa nova que uso aqui”. Alguém entendeu?

17º ) Titãs –  O Mundo é Bão, Sebastião

Essa canção de 2001, composta por Nando Reis que também a interpreta, teria por fim, ao que consta, homenagear seu filho, Sebastião, então com apenas 6 anos. Nela, o ex-titã buzinou tantas vezes nos ouvidos do pobre guri “o mundo é bão, Sebastião, o mundo é bão, Sebastião, o mundo é bão, Sebastião” que o moleque passou a duvidar que fosse mesmo. Se o mundo é bão, não sei. Mas essa música é muito ruim.

16º ) Roberto Carlos – Jesus Cristo

Os (e as) maiores intérpretes da MPB se renderam ao carisma do ‘cara’, não há como contestar essa unanimidade. É preciso reconhecer que Roberto, além de excelente intérprete, tem grandes lances de inspiração criativa sobretudo na sua irreverente fase “brasa” e mesmo em algumas românticas. Está, de fato, muito acima dos meros mortais, indiscutivelmente é o rei. Mas não é Deus. Nem apóstolo. A música brasileira agradeceria se Roberto se limitasse a fazer o que sabe, restringindo suas preces à intimidade dos momentos serenos de introspecção.

15º ) MPB-4 – A Lua

Desconte o fato de que a interpretação é do maior conjunto vocal da música brasileira, o MPB-4. Tirando a roupagem de gala, sobra muito pouco para essa música que realmente é bem chinfrim, a começar pelo clichê do jogo de palavras: “A lua, quando ela roda, é nova, crescente ou meia, é cheia … depois é lua nova…mente quem diz que a lua é velha”. Fonte suprema de inspiração para poetas e apaixonados, a lua continua sem ter, por essas plagas tupiniquins, um tributo musical à altura do clássico americano Blue Moon de Rodgers and Hart. Desde os anos 50, continuamos louvando o banho de lua da Celly Campello.

14º ) Nenhum de Nós – Astronauta de Mármore

Dizem as más línguas que escutar essa versão (desfiguração?) de seu clássico do álbum Ziggy Stardust de 1972, abreviou os anos de vida de David Bowie. A começar pelo refrão em que “Starman” virou “Estar Lá”. O fato é que a plateia mais jovem merecia ter sido apresentada ao revolucionário ícone do rock britânico em melhores circunstâncias. Talvez fosse mais apropriado mantê-lo intocável (e ‘intocado’) em sua integridade musical, afastado do grande público brasileiro (que satisfeito estava ouvindo Lady Gaga e Rihanna). E os gaúchos permaneceriam sob os olhos insanos de Camila, Camila.

13º)  Engenheiros do Hawaii – Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones

Mais uma translação pastiche para o português feita por um grupo de rock dos pampas. Desta vez, a “vítima” foi uma composição “datada” do italiano Gianni Morandi, um manifesto contra a guerra do Vietnã. A música de protesto cumpriu a contento, à época em que foi composta, sua missão antibelicista. Já fora por aqui, nos anos 60, um tremendo sucesso nas paradas (menos nas militares, lógico) com Os Incríveis. Não havia nenhuma necessidade de ser desencavada pelo conjunto gaúcho, ainda mais que sua versão (com direito a um bônus do hino da independência nacional) é de longe a pior das três.

12º ) Roupa Nova – Linda Demais

Em se tratando de músicas chatas, o grupo carioca é imbatível. Merecia até estar presente diversas vezes nessa relação. Desde que caiu no gosto da massa, nas trilhas de novela e no nível de qualidade de suas composições, o Roupa Nova emplacou uma sequência infindável de canções lacrimosas de apelo popular como Anjo, Dona, A Viagem e outras, uma mais xaroposa do que a outra. Linda Demais (“Linda, só você me fascina, te desejo muito além do prazer”) é uma condigna representante do conjunto da obra.

11º ) Leoni – Garotos II ( O Outro Lado)

O ex-Kid Abelha e ex-Heróis da Resistência resolveu tentar carreira solo. Não sei se foi uma boa ideia. Assim não fosse, teríamos sido poupados dessa chatinha “Garotos II (O Outro Lado)”, que já começa ruim pelo nome: a música tem esse título esquisito por se contrapor à “Garotos” (composta pelo próprio Leoni em parceria com Paula Toller). Difícil entender que tenha feito mais sucesso que a original. “Garotos não resistem aos seus mistérios, garotos nunca dizem não, garotos, como eu, sempre tão espertos, perto de uma mulher, são só garotos”. Garotos, garotos, garotos. Cresça, garoto!

10º) Flávio Venturini – Espanhola

Flávio Venturini nos gloriosos tempos de 14 Bis e depois, em sua carreira solo, compôs diversas músicas antológicas que fizeram parte da história da MPB.  “Todo Azul do Mar” e “Nascente” são exemplos expressivos. Essa “Espanhola” (parceria com Guarabyra), apesar de inevitáveis protestos que virão dos fãs, poderia ficar de fora. Ainda que executada em todas as rodinhas de violão, é um tanto piegas: “Te amo, espanhola, te amo espanhola, se for chorar…”. Acho que vou…

9º ) Djavan – Oceano

Djavan é um cultuado artista da MPB e um ótimo vendedor de discos. Não tem motivo algum para choramingar tanto. Seu repertório está coalhado de nhem-nhem-nhem´s que faz muitas vezes confundi-lo com Jorge Vercilo (sua cópia piorada). Há, sem dúvida, boas sacadas como em Açaí e Sina, duas de suas boas canções. Esse “Oceano” até que promete mas, ao final, a vastidão do mar vai secando até desaguar num filete de sílabas entaladas na boca de uma torneira entupida: “só-sei-vi-ver-sê-fô-por-vô-cê”! Ufff…

8º) Legião Urbana – Monte Castelo

Desde que se entranhou como trilha sonora oficial da Vila Madalena, o Legião Urbana tornou-se um caso emblemático de saturação auditiva.  Todos os músicos de barzinhos sentem-se na obrigação ideológica de entoar os tons soturnos à maneira de Renato Russo para alguns de seus clássicos deprê, como essa Monte Castelo em que os rockeiros rebeldes sucumbem ao poder do amor: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos sem amor eu nada seria.” Socorro, The Clash, Dead Kennedys, Ramones!

7º ) Gilberto Gil – Só Chamei Porque te Amo

Stevie Wonder é um dos maiores artistas da cena internacional, que teve momentos antológicos em canções como Superstition, I Wish, Higher Ground, Sir Duke dentre outras. Mas às vezes, o gênio tem algumas recaídas melosas como na descartável I Just Called to Say I Love You feita para o filme Dama de Vermelho. Em meio a tantas opções, Gilberto Gil escolheu justamente essa música insossa para homenagear o crooner da black music. A versão em português conseguiu a proeza de superar em chatice a original. Não contente com a iconoclastia, Gil resolveu, foi além: pasteurizou outro ídolo internacional, Bob Marley, em Não Chores Mais (No Woman, No Cry), enquadrada no padrão baianês do artista, até não lhe restar nenhum traço de reggae.

6º ) Cássia Eller – Palavras ao Vento

 A arrojada Cássia Eller também teve suas recaídas sorumbáticas de Ana Carolina. Essa música soporífera de seu repertório, fruto da peculiar parceria de Marisa Monte com Morais Moreira, sofre de uma contradição interna: trata de PALAVRAS mas repete monocordicamente a mesma: “Palavras apenas, palavras pequenas, palavras momento, palavras, palavras, palavras, palavras, palavras ao vento”. Tantas “palavras” resumidas a uma só palavra. Excesso de palavras e carência de vocabulário.

5º ) Rita Lee – Desculpe o Auê

 Desde que abriu mão do rock e da rebeldia para tornar-se a queridinha da Alfa e da Antena 1, Rita Lee não parou de vender discos mas tem se tornado progressivamente mais enfadonha e desinteressante. Os tempos de guitarras e da ousadia definitivamente foram sepultados por melosas juras de amor: “Desculpe o auê, eu não queria magoar você, foi ciúme, sim” e “Da próxima vez eu me mando, que se dane meu jeito inseguro, nosso amor vale tanto, por você vou roubar os anéis de Saturno”. Saudades da ovelha negra…

4º ) Tim Maia e Gal Costa –  Um dia de domingo

Dupla de gigantes em interpretação, juntando suas privilegiadas vozes numa histórica performance conjunta. A expectativa era grande. Que compositor seria agraciado pela homenagem desse encontro especial dos dois monstros sagrados? Chico? Caetano? Milton? Não: Michael Sullivan e Paulo Massadas, os reis… da dor de cotovelo. O resultado não podia ser pior: uma das maiores catástrofes de cafonice que se tem notícia na história da MPB: “Faz de conta que ainda é cedo, tudo vai ficar por conta da emoção, faz de conta que ainda é cedo, e deixar falar a voz do coração”. Quando julgáramos estar esse suplício sonoro caindo no esquecimento, Ana Carolina e Celso Fonseca fizeram o desfavor de ressuscitar das tumbas o nefasto cadáver.

3º) Elis Regina – Alô, Alô Marciano

Nem mesmo nossa maior cantora ficou isenta de seus escorregões. Ainda que escolhendo a dedo seu repertório, a soberba Elis, ao fim da vida, sucumbiu, do alto de sua magnificência, ao desejo de inflar o ego, abusando de dispensáveis estrepolias vocais e de uma afetação exagerada e irritante ao interpretar histrionicamente esse escracho musical (encomendado de uma Rita Lee em fase baixa). Não foi suficiente para empanar sua majestosa carreira mas poderia ter-nos poupado da empolada entoação “down, down, down on high society” e de versos como “tem sempre um aitolá pra atolar”.  Elis, que nunca precisou provar nada a ninguém, acabou provando que até mesmo os mais divinos humanos cometem pecados mortais.

2º) Caetano Veloso – Você é Linda

Dizer que Caetano é um gênio é chover no molhado. Caetano se manteve no pico mesmo depois de gravar Peninha. Agora, imitar Peninha já é demais! É provável que essa “Você é linda” composta em 1983 e que até hoje testa nossa paciência em todas as FM’s, tenha servido de inspiração para o clássico universal da agonia “You´re Beautiful” de James Blunt (considerada a música mais irritante de todos os tempos, segundo a revista The Sun).  Seja como for, versos como “Você é linda, mais que demais, você é linda sim” são dignas de qualquer pagodeiro romântico.

1º) Chico César – À Primeira Vista

O paraibano Chico César iniciou com o pé esquerdo sua carreira musical com duas musiquinhas chicletes que tocaram ad nauseam nas rádios: Mama África (A minha mãe é mãe solteira… além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia) e principalmente essa À Primeira Vista (gravada também por Daniela Mercury) que, para sua sorte, não foram suficientes para abortar sua vida artística, embora tivessem potencial de sobra para tanto: “Quando tive frio, tremi, quando chegou carta, abri, quando ouvi Prince, dancei, quando vi você, me apaixonei”, ao que se acrescentaria “quando ouvi essa música, odiei”. Não bastasse isso, traz as palavras mais proverbiais e profundas da MPB: “Amarazáia zoê, záia, záia, a hin hingá do hanhan”. Hã ?

Observação: Deixamos propositalmente de fora alguns clássicos da chatice, hors concours:

  • “Reluz” com Marcos Sabino
  • “Sonho de Ícaro” com Biafra
  • “Porto Solidão” com Jessé
  • “Escrito nas estrelas” com Tetê Espíndola
  • “Não se Vá” com Jane e Herondy
  • “Tô nem Aí” com Luka
  • “Eva” com Rádio Táxi
  • “Planeta Água” com Guilherme Arantes
  •  “Bandolins” com Oswaldo Montenegro
  •  “Então é Natal” com Simone
  • “Masculino e Feminino” com Pepeu Gomes
  • “Anna Julia” com Los Hermanos.

Cartas à mesa, esconjure seus demônios, revelando sua sugestão para esse inventário.

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Sobre o Autor

Sérgio Sayeg

Sérgio Sayeg

Brasileiro, 64, economista formado pela USP, ex-professor universitário, ex-proprietário de loja de discos raros e escritor. Escreveu o livro de Crônicas O QUE DE MIM SOU EU pela editora Scortecci em 2012. Páginas no facebook: O QUE DE MIM SOU EU em que publica crônicas; CONTRO-VERSOS com mini poesias provocativas; OBRAS PRIMAS DA MÚSICA BRASILEIRA NÃO DEVIDAMENTE RECONHECIDAS com matérias sobre álbuns de MPB que não tiveram a merecida repercussão na mídia.

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