Crônicas

As últimas páginas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

O Silêncio se desfaz pelo rumor das hélices. As páginas vão sendo viradas rumo a um breve fim. A história é boa, dessas que nos prende e nos deixa em cima do muro: querer conhecer o fim ou permanecer entre as brumas da curiosidade, em meio aos cenários e personagens que já fazem parte da nossa rotina?

O Silêncio é rasgado pelo movimento da persiana, que ao bater de encontro a parede é um tímido despertador. O natal se foi, mais uma vez. Este ano, o bom velhinho apareceu para mim disfarçado de cachorrinha, uma viralata com jeito e visual de pedigree, chamada Mia; pude ser a Mamãe Noel de duas menininhas, das quais só conheço nome e uma foto, que formavam dois lindos pingentes numa árvore de solidariedade. O ano foi bom; troquei a faculdade pela vida adulta, um diploma e alguns primeiros projetos, um prêmio internacional e muita esperança no futuro. Revi amigos antigos, trouxe novos para a rede dos mais próximos, viajei, chorei, sorri, discuti, aprendi, me conheci um pouco mais. E assim, sem avisar, é chegado o último domingo do mês como última visita. Viro e reviro página por página, na tentativa de deixá-lo confortável neste dia quente. Parágrafos de grande efeito e uma ou outra frase que ficarão para sempre na memória fazem sala para o visitante. Já não restam muitas folhas. Dentro da mala, que será despachada com destino ao Reveillon, um novo volume me espera para que eu desbrave o conteúdo de suas páginas ainda virgens.

As hélices continuam a quebrar o vazio da audição, mas agora já não solam frente à orquestra vespertina: passos, sussurros, cortinas sendo abertas, louças preparando a mesa para o desjejum, arranhões na porta – é Mia, querendo me acordar para curtir o dia. Eu me deixo sorrir e abraçar o corpinho peludo e feito de amor. Desligo o ventilador e livro a persiana do serviço sombrio de vendar o domingo. A casa cumprimenta a manhã, que se senta à mesa para o café.

As páginas tentam passar devagar, mas o relógio dita o compasso. Já não faltam muitas…

Que o livro de 2016 seja uma edição em branco para cada um de nós. Que recebamos domingos, segundas e terças-feiras com um café da manhã reforçado em nossas vidas. Que o resto das semanas tenha a lembrança e o afago de um abraço sincero. Que as poucas páginas que ainda restam, nos apresente um final feliz.

FELIZ ANO NOVO!

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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