Crônicas

Atirou o mundo no vaso sanitário e puxou a descarga!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ele nunca tivera tanta insônia. Nunca. Mas sabia que sofria desse mal. O mal do século, dissera outro dia para o colega. Sabia também que havia tratamento. Lera em uma revista médica que a “doença” – ele falava assim, aspeando a palavra com os dedos –tinha cura. Tudo era uma questão de hábito. Mesmo assim, cabeça cheia de ensinamentos médicos e populares, crendices, como costumava dizer, somente conseguia “pegar” no sono por volta das duas ou três da madrugada.

Com os olhos de quem acabara de acordar ficava li, cabeça na janela e pensamento na rua, invejando os que naquela hora dormiam. Felizes os boêmios, costumava dizer, esses não desejam um lugar ao sol. Dizia isso por dizer. Ele gostava de frase feita. Frases. Essa, porém, sabia que não fora feita por ele. Ah, e boêmio era a única coisa que ele não fora nem pensara um dia ser na vida.

Era um insone por natureza. Isto ele era: insone! Nem mesmo podia ser dar ao luxo de se dizer notívago. Notívalo? Tudo bem. Apesar de pouco ou nunca ter saído daquela janela, voara por muitos lugares e conhecera todos os mares e visitara varandas e quartos de todas as mulheres que passaram e deixaram marcas na sua imaginação! É… Notívalo podia ser

As horas não lhe incomodavam mais que os raios do sol que invadiam o seu quarto, anunciando um novo dia. As horas! Ah, elas! Revoltado com elas, as horas, jogara o relógio de pulso para longe do criado-mudo que nada dizia ao lado de sua cama. Que abuso! Parecia falar mais que aquele político que vira outro dia no Programa Eleitoral. Não disse “Gratuito” porque sempre soubera que a única coisa grátis que ainda tinha nesta vida era o ar que respirava.

Grátis? Repetiu: grátis, grátis… Obtemperou. Nada nessa vida é grátis! Para respirar esse ar que lhe enchia os pulmões, tinha que pagar caro. E pagava! Ele, por exemplo, pagava por morar perto de uma fábrica de cimento e caminhar às vezes que se esquecia que de caminhar tinha preguiça. E caminhava! Seguia por uma orla limitada por enormes lixeiras cheias até a boca, e veículos de todos os anos e tipos soltando fumaça escura como as noites que infernizavam a sua vida.

Duas horas da madrugada! O mar parecia cansado. As ondas chegavam à beira-mar nos seus estertores. Nem o bramir das águas se ouvia mais. Agora o mar era calmo e doce como um animal de estimação criado em casa desde o nascimento. Uma tela escura e sem nenhuma perspectiva de luz. O silêncio do mar é barulhento! Sabia.

Mas, nesse dia, o silêncio era tanto que dava para ouvir o som da música de uma folha caindo chão e o ar saindo, mansamente dos pulmões. Estava mais silencioso do que nunca. Morto. Talvez. O mar estava morto! Um mar morto. Melhor: era outro mar morto. E ali bem pertinho, azul da cor do céu, debaixo de sua janela.

As horas não passavam! Ora, isso era o de menos! Pensara. Vivemos e inventamos as horas que desejamos. Hora é tempo. Tempo é apenas uma ideia. O que lhe preocupava mesmo era o sol que começava a se derramar em vermelho sobre as nuvens escuras. Sangue! O sol! He comes the Sun! Essa bola de fogo que tanto nos aquece quanto mata! Dele tinha medo. E ficava ali, agora incomodado, os olhos cada vez mais abertos, revoltado com o tempo perdido.

Não queria nem saber daquela propaganda besta de que perdemos um terço de nossas vidas em cima de um colchão. Em cima ou em baixo. Não estava preocupado. Dormir! Estava perdendo justamente isso: o tempo para dormir! Não queria passar a vida acordado, identificado como o homem que não dormia. Queria dormir e fim de papo. Mesmo que fosse para sempre. Fechar os olhos e deixar o corpo vagar, levitar, voar em direção ao mistério! Isto iria acontecer um dia. Nenhuma dúvida. Sorrindo, ficava a imaginar: vai engolir esse sol e beber todo esse mar! Pegar o mundo e atirar na privada, dar descarga e fechar a janela! E pensando assim, finalmente, adormeceu.

No quarto vizinho, esse onde os pais dormiam, ouviu-se apenas um barulho de água descendo em rodopios. Nenhuma carta deixou. Nenhum vestígio. No vaso sanitário a água mais limpa que os olhos dos pais já viram.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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