Crônicas

Bola de meia, bola de gude

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Bola no canto…

Quero lembrar do tempo em que meninos jogavam inocentemente futebol em um campinho. Quero lembrar do tempo em que meninos jogavam futebol de rua, de uma esquina a outra. Bola de meia, bola de gude.

Mas.

Bola pro outro lado…

Não posso ficar muito tempo com os olhos no passado.

O menino olha, agora como homem, um outro momento: um momento de incertezas e de perplexidade! E como diz a bela canção do grupo 14 BIS:

…não posso, não devo, não quero viver

Como toda essa gente insiste em viver

E não posso aceitar sossegado

Qualquer sacanagem ser coisa normal

Não posso aceitar que tanta sacanagem fique sem uma palavra, um verso, uma crônica! E não posso ficar sossegado com hospitais em crise e gente no corredor esperando atendimento. Assim como não posso ficar sossegado com as inúmeras greves de professores e escolas sucateadas e a questão da educação nunca ser resolvida. Não posso ficar sossegado com tanta violência e desigualdade. Não posso ficar sossegado com tanta corrupção.

Não posso ficar sossegado com tanta malandragem e esperteza no trato com a coisa pública! E não fico.

Bola pro alto…

Escrevo estas linhas com medo. Escrevo esta crônica com medo do futuro. Não é uma crônica pessimista… Mas uma crônica que olha um país dividido. E escrevo com medo desta divisão.

Ideologias partidárias que atrasam e destroem, pouco a pouco, o Brasil.

Bola pro lado que é jogo de campeonato!

E dá vontade de gritar muito! Dá vontade de dizer poucas e boas! E dá vontade de reclamar com Juscelino sobre a construção de Brasília! E dá vontade de dar um belo de um pontapé… Dá vontade de esmurrar a mesa! E dá vontade de…

Bola no canto…

E escrevo mais uma crônica sobre as coisas absurdas que se passam por aqui netas terras… Escrevo com o coração apertado, com a boca seca, as mãos duras! Escrevo mais uma vez com a vontade de usar a palavra medíocre, mas sei que ela não basta e, ao mesmo tempo, me violenta ao usar! Eu amo o meu país! Mas eu odeio o meu país também! Amo aquilo que faz do Brasil o melhor lugar do mundo! E é! Odeio aquilo que faz do Brasil o lugar mais patético do universo! E é! Bola pra cima e sem rima!

Escrevo com medo, mas escrevo. No escrever, sinto que, de alguma forma, o menino volta para apontar na cara todas as sacanagens que a gente não pode sentir como coisa normal!

Bola de meia, bola de gude!

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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