Crônicas

Cala a boca já morreu

Adalberto dos Santos

Vocês conhecem uma historinha bem legal que a Ruth Rocha conta, sobre um reizinho enfezado que queria mandar em todo mundo e se deu mal na vida? Pois tem um livrinho da Ruth onde um reizinho mandão tinha tanta mania de mandar nas pessoas que acabou sozinho e correndo maluco. Quem não conhece a história, pode deixar que eu conto como é que é. Aliás, conto junto com a Ruth, que sabe mais do que eu. Quem já conhece me acompanha com a memória.

Essa historinha fez com que eu deslesse sobre o mando e o autoritarismo embutidos, ainda, no cotidiano de nossas práticas escolares. Primeiro desejo lembrar a tal da história: da mesma forma como me foi contada (é bom lembrar histórias). Depois, digo umas coisas que a cuca ficou pensando acerca de muitos reizinhos mandões que existem aos montes, aí nas escolas.

A história começa com o pai do príncipe morrendo e o danado do príncipe virando rei do lugar. Só porque ficou rei, esse “sujeitinho muito mal-educado” queria mandar em tudo dentro do reino. Ele não sabia nada. Mas de uma hora para outra deu de criar leis e mais leis, sem a mínima graça. Uma que ele criou proíbia as pessoas de cortar a unha do dedão se a noite fosse de lua-cheia. Outra dizia que ninguém deveria dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês. E assim ele começou a proibir isso, a vetar aquilo, até que…

Um dia os conselheiros do rei disseram-lhe que ele deveria fazer leis mais interessantes, que fizessem com que o povo vivesse mais feliz. Mas o reizinho nem ligou. E quando qualquer pessoa tentava dar alguma opinião acerca de seus atos, ele ficava uma pimenta, pulava e gritava o mais alto que podia:

– Cala a boca! Eu é que sou o rei. Eu é que mando!

Aí as pessoas foram ficando com medo do reizinho. Ninguém queria levar bronca, ainda mais sem merecer. Resultado: de tanto ficarem quietas e caladas por causa da rabugice de sua majestadezinha, elas foram se esquecendo com é que se falava. Verdade: elas esqueceram completamente como que se falava. Só o papagaio do rei era que repetia:

– Cala a boca! Cala a boca!

No começo até que ele gostou, porque podia falar horas e horas e ninguém interrompia. Mas tudo o que a gente faz sozinho acaba cansando. E o reizinho começou a enjoar de tanto falar sozinho. Viu que ninguém dizia mais nada, ninguém sabia falar. Ele perguntava e as pessoas não respondiam, puxava conversas e ninguém queria conversar. Só o papagaio do rei era que continuava repetindo:

– Cala a boca! Cala a boca!

Aí o reizinho notou que havia cometido um grande erro e que deveria consertá-lo, antes que não pudesse conseguir mais falar nem consigo próprio, de tanto silêncio. Foi quando ele lembrou que, quando o seu povo ainda falava, escutou uma história sobre um reino vizinho onde um velho sábio resolvia os problemas mais difíceis do mundo. Pegou seu papagaio e se mandou para lá o mais depressa que pôde.

O que o reizinho viu naquele reino vocês já imaginam: o exatamente oposto do que estava ocorrendo no reino dele: crianças cantando em toda altura, falando pelos cotovelos, pessoas alegres nas praças, na feira, em todo canto… E o reizinho foi conversando com essa gente, sem mandar ninguém calar a boca. Depois encontrou o sábio, que lhe disse uma porção de coisas certas sobre seu comportamento:

– Pois é – ele dizia. – Vai mandando calar a boca, não é? Depois agüenta! É isso que dá!

O rei só escutava:

– Veja só o seu caso: mandou que mandou! Inventou uma porção de leis bobocas. Mandou todo mundo calar a boca, calar a boca, calar a boca! Decerto com medo de que todo mundo dissesse que você estava falando bobagens. Pois todo mundo calou! Não era isso que você queria?

O reizinho baixou a cabeça, desapontado…

Então o sábio explicou o que ele deveria fazer:

– Pois muito bem! – falou o velho. – O que você tem que fazer é sair pelo seu reino batendo de porta em porta. Se conseguir encontrar uma criança, uma só, que ainda saiba falar, ela vai dizer o que você precisa ouvir. E nesse dia seu reino vai ficar livre dessa maldição.

– Mas o que ela vai dizer? – perguntou o reizinho, aflito.

– Ah, isso eu não sei – disse o sábio.

– Mas você não é um sábio? Não sabe de tudo?

– Saber eu sei, de muitas coisas. Mas isso não. Procure uma criança que saiba falar. Essa, sim, pode ensinar você.

Então o reizinho voltou para o seu reino, e começou a procurar a tal criança. E começou a bater de casa em casa, e perguntava se as pessoas conheciam uma criança que ainda soubesse falar. Mas ninguém respondia: em vez de palavras, cabeças balançavam para lá e para cá, sem que o reizinho ouvisse resposta. Até que um dia…

Passando diante de uma casa o reizinho reparou que de dentro dela estavam fechando as janelas. Esperto, bateu na porta, bateu, bateu, até que a porta se abriu. E uma velha senhora assustadíssima apareceu diante dele.

Que fez o reizinho? Perguntou à velha senhora o que perguntava a todo mundo. Mas a velha não dizia nada, apenas olhava para dentro da casa, com um medo de meter medo em qualquer pessoa. Desconfiado, o rei foi empurrando a porta e foi entrando na casa com toda a má-educação de que era dono. Aí ele viu uma menininha de trança e vestido, muito bonita, no fundo da sala.

O reizinho foi indo na direção dessa menina, parou bem perto dela e perguntou com uma vozinha toda macia:

– Então, linda menina! Não vai me dizer alguma coisa?

A menininha, nada!

– Como é, minha flor? Diga alguma coisa para o seu rei ouvir! Anda!

A menininha, nada!

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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