Crônicas

Carnaval, ontem e hoje

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Cada folião brinca o carnaval como lhe apetece. Uma fantasia, um adereço, uma máscara, e pronto! É uma oportunidade para fazer coisas que normalmente não faríamos: dançar na rua, virar super-heróis, falar com desconhecidos, carregar na maquiagem, inventar uma performance.

Não sou do tempo do corso, mas já assisti a várias transformações na maneira de festejar o carnaval no Rio. O carnaval é uma festa que se reinventa constantemente.

Recordo-me do carnaval de rua no centro do Rio, quando fantasias de cacique e índio eram populares. Em criança, aquelas caras pseudoferozes, encimadas por cocares feitos com penas de espanadores, assustavam-me.

Também era comum encontrar alguém vestido de bebê (às vezes acompanhado de uma “mãe”). A fantasia consistia em uma fralda branca gigantesca (provavelmente um pedaço de lençol velho), presa por um alfinete idem, uma touca de babados e uma descomunal chupeta de plástico. A fralda da “criança” estava sempre suja de uma substância marrom, que não passava de abacate esmagado.

Carnaval sempre combinou com humor. Existiam foliões solitários que desfilavam portando cartazes “Bloco do eu sozinho”. Hoje em dia seria impossível: qualquer coisa que apareça com o nome de bloco arrasta irremediavelmente uma multidão de seguidores.

Há algumas décadas, o ápice dos desfiles de rua era, às terças-feiras, o dos carros alegóricos das agremiações conhecidas como “Grandes Sociedades”. Havia também um dia destinado ao desfile das Escolas de Samba (acho que era o domingo) e outro ao dos Ranchos (acho que era o sábado). A segunda feira não era feriado. Desse calendário só restaram os desfiles das Escolas, que foram crescendo cada vez mais até se transformarem no maravilhoso espetáculo que são hoje.

Depois dos desfiles era comum ver passistas e baianas zanzando pelo centro do Rio, trajados a caráter. Havia também muitos homens vestidos como nas cortes de séculos passados, os sapatos ostentando enormes fivelas douradas na frente. Descobri, anos mais tarde, que esse tipo de fantasia era recorrente porque o regulamento dos desfiles obrigava as Escolas a desenvolver enredos históricos. O pessoal se esmerava em reis e rainhas para dar conta do recado. Sérgio Porto traduziu isso muito bem no “Samba do Crioulo Doido”, uma canção popular cuja letra é uma obra prima. Se ele fosse vivo não poderia usar esse título. Dava multa e cadeia.

Reis e rainhas sobrevivem nos figurinos mais sofisticados das Escolas, contudo, os enredos, se é que podemos chamá-los assim, deixaram de ser obrigatoriamente históricos. Mas continuam tão doidos quanto antes. Quem se importa? Certas óperas clássicas não ficam atrás. A quem duvidar, recomendo assistir, por exemplo, à “Flauta Mágica” de Mozart.

Houve uma época em que o carnaval de rua desapareceu quase por completo e as pessoas passaram a frequentar os bailes. Depois desapareceram quase por completo os bailes e renasceu o carnaval de rua. Os blocos não param de crescer e agora, andando pelas ruas da cidade, encontram-se centenas de foliões fantasiados, quase todos na base do improviso inventivo.

O que praticamente desapareceu no Rio foram os concursos de fantasias. Uma pena. Eram divididos em duas categorias: luxo e originalidade. As de luxo perderiam atualmente para muitos destaques de Escolas de Samba, mas eram belíssimas. As de originalidade não precisavam de grandes aparatos, e vários indivíduos se inscreviam nessa categoria só para ganhar passe livre ao baile que promovia o concurso.

Alguns candidatos, cujas fantasias não conseguiriam ser finalistas na categoria luxo, acabavam inscrevendo-se na categoria originalidade, acreditando que assim teriam melhores chances de ganhar prêmios. Diante de fantasias cada vez mais complexas e luxuosas, geravam-se discussões intermináveis sobre se isto ou aquilo poderia ser aceito na categoria originalidade. Criava-se um impasse: merecia ganhar quem se apresentou de “Rainha do Egito” ou a bailarina que saía de uma caixinha de música?

A rainha do Egito era um luxo só, vinha acompanhada de dois eunucos, mas existiam outras três ou quatro rainhas semelhantes concorrendo na categoria luxo. A bailarina era mais modesta, mas a “caixinha” era um imenso caixote finamente decorado e os jurados não chegavam a um acordo sobre se caixote podia ou não ser considerado fantasia. Idem se os eunucos, que davam um toque de originalidade à rainha, podiam participar.

Os concursos de fantasias tinham habituées famosos e, depois da divulgação dos resultados, havia sempre muito choro e ranger de dentes. O carnaval muda, mas isso continua igualzinho, só que não é mais no concurso de fantasias.

Outra coisa que não sai de moda no carnaval é homem vestido de mulher. A produção é fácil: basta pegar emprestada a roupa da namorada, da irmã, da amiga. Alguns enfrentam até o salto alto! Vá entender…

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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